Na Igreja primitiva, era o peixe o símbolo secreto de fé cristã, em referência ao batismo pela água. Assim como os peixes vivem nas profundezas do mar, dos rios e dos lagos, os cristãos, mergulhados nas catacumbas, onde foram encontradas várias pinturas de peixes, renasciam pela água batismal. Para santo Agostinho, Cristo é o peixe vivo no abismo da mortalidade, como em águas profundas (De Civitate Dei, XVIII, 23). Além disso, peixe, em grego - ichthys - era considerado acróstico de Iesous Christos Theou (H)yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).
Foi a perseguição romana que induziu as comunidades a adotar a cruz, instrumento de suplício e morte do Império. Nela Jesus foi sacrificado. A mais antiga cruz que se conhece data do século IV e está gravada no portal da igreja de Santa Sabina, em Roma, no monte Aventino, anexa ao convento que abriga o governo geral da Ordem Dominicana. (pg13)
Talvez seja isto a espiritualidade: o cerne do nosso ser, ser o que se é, para que não fique gravado na lápide de nossos túmulos o terrível aforismo cunhado por Fernando Pessoa: "Fui o que não sou". (pg19)
A oração é para o cristão o que a relação sexual é para o casal que se ama. O casal que se ama e não tem momentos de intimidade é como o cristão que diz que ama a Deus e ao próximo, mas não reserva momentos de intimidade com Deus. Esses momentos chamam-se oração. (pg20)
Onde há amor, o tempo é estorvo. O sonhos dos amantes é fazer os ponteiros pararem no infinito. No entanto, não fazemos isso com Deus. Nós, escravos do tempo, não sabemos dispor sequer de poucos minutos para desfrutar da experiência amorosa de Deus. Falamos de Deus, falamos sobre Deus, rogamos a Deus, suplicamos a Deus... mas não deixamos Deus falar em nós.
Um dos maiores desafios da vida espiritual é reservar, em nosso dia a dia, alguns momentos para curtir o amor de Deus, assim como encontramos um tempo para comer e dormir. Sim, sei muito bem que essas duas coisas situam-se na esfera da necessidade, enquanto "namorar" Deus pertence à esfera da gratuidade.
Nossa cultura nos ensina que tempo é dinheiro. Só se gasta tempo com aquilo que vai ter proveito imediato e palpável. Daí a dificuldade de abrir, em nossas vidas, espaço para a oração.
Não há dificuldade de abrir espaço para a relação amorosa, sobretudo quando irrompe como paixão. A pessoa mais ocupada do mundo haverá de encontrar tempo para o ser amado, ainda que obrigada a sacrificar o sono e a agenda de trabalho. Claro, nesse caso há um "retorno", o sentir-se amado. Sente-se que a relação custo/benefício é positiva. Em se tratando da relação com Deus, as coisas são um tanto diferentes. E onde reside essa diferença? É que Deus é ciumento e, portanto, exige que, primeiro, abandonemos os antigos "amores", ou seja, tantos apegos e supostos valores que nos impedem de estar próximos dele. Sem tais renúncias, nosso espírito permanece opaco à sua presença. Ele exige, como todo amante, exclusividade. Porém, ao contrário dos amantes, não nos quer só para ele. Faz do amor que tem a nós fonte transbordante de amor à natureza e aos outros. Isso se chama felicidade.
Por que orar? Para dilatar o coração e ser capaz de amar assim como Jesus amava. O contrário do medo não é a coragem, é a fé, essa planta que, para vicejar, exige água (a oração) e sol (o Transcendente). Sem regar, a planta morre calcinada. (pg21)
Orar é entrar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo, e não se pode dizer que esta é melhor que aquela. Há orações individuais ou coletivas, baseadas em fórmulas ou espontâneas, cantadas ou recitadas. Os salmos, por exemplo, são orações poéticas, das quais cerca de cem expressam lamentação e/ou denúncia, e cinquenta, louvor.
Nós, ocidentais, temos dificuldade de orar, devido ao nosso racionalismo. Em geral, ficamos na soleira da porta, entregues à oração que se apoia nos sentidos (uma música, uma dança, a observação de paisagens e vitrais etc.) ou na razão (leituras, reflexões, fórmulas etc.).
Orar é entrar em relação de amor. Jesus sugeriu não multiplicar as palavras. Deus conhece os nossos anseios e necessidades. Na oração, é preciso entregar-se e deixar que ele ore em nós. Se temos resistência à oração é porque, muitas vezes, tememos a exigência de conversão que ela encerra. Parar diante de Deus é parar diante de si mesmo. Como num espelho, ao orar vemos o nosso verdadeiro perfil - dobras do egoísmo realçadas, mágoas acumuladas, inveja entranhada, apegos enrijecidos. Daí a tendência a não orar ou fazer orações que não revirem ao avesso a nossa subjetividade.
Os místicos, mestres da oração, sugerem aprendermos a meditar. Esvaziar a mente de todas as fantasias e ideias, e deixar fluir o sopro do Espírito no silêncio do coração. É um exercício cujo método a literatura mística ensina. Mas é preciso, como Jesus, reservar tempo para isso.
Oramos para aprender a amar como Jesus amava. Só a força do Espírito dilata o coração. Portanto, uma vida de oração se avalia, não pelos momentos entregues a ela, e sim pelos frutos na vida cotidiana: os valores elencados como bem-aventuranças no Sermão da Montanha (Mateus 5,1-12). Ou seja, pureza de coração, desprendimento, fome de justiça, compaixão, destemor nas perseguições etc.
Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar em nosso espírito. É permitir que faça morada em nós. Sem cair no farasaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como aquele fariseu diante do publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e individualista em que vivemos.
Orar é subverter-se a si próprio. Centrado em Deus, o orante descentra-se nos outros, e imprime à sua vida a felicidade de amar porque se sabe amado. Parafraseando Jó, antes de orar se conhece a Deus "por ouvir falar". Depois, por experimentar. O que levou Jung a exclamar: "Eu não creio. Eu sei." (pg23)
Método de oração
Deve-se inicialmente reavaliar como se tem rezado, que dificuldades têm sido encontradas. Na vida de oração é preciso distinguir o teologal do moral. O teologal é o diálogo íntimo com Deus, consciente de que o orante é um pecador aberto à misericórdia do Pai. Este não exige uma conduta moral exemplar de quem pretende dele se aproximar. Como bem o mostra a parábola do filho pródigo, é o Pai que vai ao encontro do filho arrependido, disposto à reconciliação. Assim, a oração é fator de reconciliação da pessoa com Deus, e dela mais necessitam justamente aqueles que se sentem, de algum modo, em contradição com o projeto e a vontade dele.
O silêncio é a matéria-prima do amor e da oração. Não se trata apenas do silêncio exterior, tão difícil hoje nas grandes cidades. Trata-se, sobretudo, do silêncio interior, que resulta do descanso físico e mental, da concentração, do controle do desejo e da ansiedade, e de deixar-se habitar pelo Espírito. Sob estafa, a oração é como trocar a refeição calma e farta por um sanduíche vendido na esquina e comido de pé...
São João da Cruz recomenda que, no trabalho, a pessoa se assemelhe à cortiça na água, ou seja, sem nunca se deixar submergir. Saber dosar as tarefas, não se julgar insubstituível, evitar a multiplicação incessante de compromissos e respeitar o ritmo do organismo e da mente, é uma sabedoria a ser conquistada por quem pretende aprofundar-se na vida de oração.
A concentração é obtida através de exercícios que exigem o isolamento do corpo e da mente. Primeiro, é preciso descobrir o gosto pela solidão. Estar só em casa ou num parque, simplesmente observando detalhes, contemplando esses infinitos objetos e movimentos que sinalizam a plenitude divina. Controlar o desejo, negando aos ouvidos a música gostosa ou, aos olhos, a curiosidade de devorar notícias à primeira hora da manhã. Suprimir, durante uma semana, um dos alimentos a que se está acostumado - como a carne ou o açúcar -, nesse treino de tornar-se sempre mais independente diante das coisas e mais senhor ou senhora de si mesmo.
Mente dispersa é como uma casa com todas as janelas abertas numa ventania. É preciso fechar as janelas e portas da mente, através de exercícios apropriados, como centrar a atenção na própria respiração, contando as aspirações e expirações, sem um dar seu ritmo, de 1 a 4 e novamente recomeçando, como se não houvesse outra coisa com que se preocupar. É bom também ficar numa posição cômoda - desde que não seja deitado - durante quinze ou vinte minutos, de olhos fechados, fixando-se na ideia de que toda a mente está ocupada por uma nuvem branca, muito densa, que não permite a entrada ou a permanência de nenhuma outra imagem ou pensamento.
Deixar-se habitar pelo Espírito é mergulhar no amor de Deus, que nos envolve por todos os lados. Ele jamais deixa de amar as pessoas. São estas que, movidas por falsas noções religiosas, podem imaginar que Deus as abandona. Ora, Deus é amor e, portanto, não pode negar a si mesmo. Ele ama em qualquer circunstância, pois o seu ser é amor. A pessoa é que se abre mais ou menos a esse amor que se derrama gratuitamente, querendo inundar corações.
A experiência de Deus não é algo que se situe no plano da consciência e sim na inconsciência. O místico é aquele que conseguiu, na acolhida do dom de Deus, reduzir o espaço que há entre o consciente e o inconsciente. Lá no centro de si mesmo, a pessoa encontra Deus, âmago de seu ser e energia de seu existir.
Nosso modo de rezar tem a ver com a nossa visão de Deus. Quem confia, entrega-se; quem teme, roga; quem ama, espera; quem duvida, racionaliza. (pg 25)
Séculos antes de o imperador Teodósio I, o Grande, proibir a Olimpíada, no ano 392, instigado por um bispo obtuso que via nos jogos uma manifestação pagã, existiu um atleta chamado Asiarques, que corria como uma lebre e participara, em Siracusa, de uma fracassada conspiração contra o tirano Dionísio, o Velho - o mesmo que frequentou as aulas de filosofia de Platão e depois o prendeu na gruta na qual nasceu o Mito da Caverna. (pg31)
O tirano, perplexo, disse que um amigo como aquele não existia no mundo. Asiarques garantiu que sim, e se chamava Pítias. (pg31)
Aristóteles, em Ética a Nicômaco, frisa que a amizade é o maior de todos os bens, e que o verdadeiro amigo é aquele que se sente mais feliz em agradar o amigo do que em ser agradado. E conclui: "Sem amigo ninguém poderia viver, ainda que possuísse todos os bens" (Livro VIII, 5). Poucos séculos depois, na Palestina, talvez após ouvir a história da amizade entre Asiarques e Pítias, Jesus de Nazaré proclamou: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" (João 15) (pg33)
No século XX, o clamor de duas grandes guerras encheu de silêncio de Deus céus e corações humanos. Motivados pelo racionalismo, Marx e Freud já haviam concordado que a ideia de Deus é uma inversão compensatória de nossas incompletudes. Só não se deram conta de que a razão é a imperfeição da inteligência. (pg40)
Fomos criados para ser felizes neste mundo. Se há dor e injustiça, não são castigos divinos, resultam da obra humana e por ela devem ser erradicadas. Como diz Guimarães Rosa, "o que Deus quer ver é gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre e amar no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta." (pg67)
velho, feio, pobre, burro e cristão
(depósito de textos, trechos, excertos, pedaços, restos, sobras, migalhas e fragmentos)
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
comentário sobre o livro "Por que virei à direita", de J.P. Coutinho, Luis Pondé e Rosenfield
Existe o dia e a noite, o preto e o branco, a esquerda e a direita.
Mais ou menos.
Na vida como ela é, existem tantas esquerdas e direitas quanto se pode imaginar, ou melhor, que nem se pode imaginar.
"Por que virei à direita", da Editora 3 Estrelas: esta ótima mas breve coletânea de ensaios abarca perspectivas de direita imaginadas por 3 intelectuais, das tantas possíveis: João Pereira Coutinho, Felipe Pondé e Rosenfield.
Coutinho e Pondé partilham de orientações semelhantes, inspirados no conservadorismo de safra inglesa. Percebe-se que não é a perspectiva mais difundida no Brasil, já que alguns de seus principais teóricos (Burke, Oakeshott) nem têm seus principais textos traduzidos no país.
Coutinho discorre em torno de autores de ciência política. Pondé, por sua vez, parte da filosofia para chegar até a política. Ambos mantém seus estilos já conhecidos em suas colunas no jornal Folha de São Paulo. Acreditem se quiser, há vida inteligente no lado direito da força.
Sobre o texto de Rosenfield, particularmente achei menos útil, por duas razões. A primeira é que o ensaio faz críticas pontuais ao PT, o que deixa o texto um pouco datado, ao contrário dos dois ensaios anteriores, mais atemporais e ricos em teoria. A segunda razão é que Rosenfield fundamenta sua predileção pela direita por causa dos erros da esquerda. Acho pouco cimento para uma construção sólida. Quem é de esquerda pode rebater na mesma moeda, ou seja, sou de esquerda por causa dos erros da direita. Afinal, o exercício de ambos os posicionamentos tem seus defeitos.
Mas um trecho do ensaio de Rosenfield é precioso: mostra que a vida como ela é difere da vida como teoria. É a parte em que Rosenfield tenta criticar o filósofo Heidegger pelo seu apoio ao nazismo:
"Numa visita à França, nos anos 1990, fui convidado por meu orientador de tese, o filósofo Jean-Toussaint Desanti, para um almoço num pequeno restaurante chinês, numa travessa da praça de Sorbonne. Na época, estava no auge a publicação de livros e documentos sobre a relação de Martin Heidegger com o nazismo. A discussão era intensa, e as revelações me deixaram indignado com o filósofo, apesar de eu admirar sua obra. Cheguei ao encontro ansiando por colocar esse assunto na mesa. Desanti ouviu-me calmamente e, com sua costumeira voz pausada, disse-me: "Denis, vou te contar uma história".
Antes, porém, de repetir sua história, conviria caracterizar um pouco o personagem. Desanti nasceu na Córsega, terra de Napoleão, em 1914 e guardou de suas origens naquela terra inóspita uma espécie de dureza. Era um homem de vasta cultura filosófica, não afeito às lutas universitárias pelo poder, das quais, aliás, mantinha distância. Era como se tudo aquilo, na perspectiva do que tinha vivido, fosse pequeno demais e não lhe dissesse respeito. Desanti atravessou boa parte do século XX como comunista. Chegou a assinar um manifesto que declarava ser Stálin o maior matemático de seu tempo. O próprio Desanti, sendo matemático, sabia que tudo aquilo era um embuste. Instado a dar satisfações sobre o manifesto, declarou simplesmente que era o "costume" da época. Outros, é óbvio, não tinham seguido o mesmo "costume". Com o passar dos anos, parecia mais e mais desiludido e cético.
Voltemos à história contada por Desanti, que faleceu em 2002. Durante a Guerra Civil espanhola, dois militantes comunistas franceses foram encarregados de contrabandear armas dos soviéticos aos comunistas espanhóis. Conheciam-se apenas por causa do trabalho partidário e, disciplinados, cumpriam ciosamente sua missão. Seguiram essa rotina de 1936 a 1939, movidos pela convicção na causa e pela obediência ao partido. Terminada a guerra, distanciaram-se um do outro, indo cumprir diferentes tarefas.
Logo depois começou a Segunda Guerra. Um dos militantes recebeu do Partido Comunista francês a missão de matar o chefe da Gestapo da cidade de Bordeaux. Preparou-se minuciosamente e armou a tocaia. Ao mirar o nazista, qual não foi sua surpresa quando reconheceu nele seu antigo camarada da Guerra Civil espanhola.
O que fazer? Deveria mata-lo ou preservá-lo? O que ocorrera? Teria o ex-comunista se convertido ao nazismo? Ou permanecia um comunista e havia se infiltrado na Gestapo, a fim de prestar serviços à Resistência? Como saber, se ele não tinha tempo para dúvidas? Não hesitou, portanto, e matou seu ex-camarada.
Como ter certeza de algo, ainda mais em "tempos sombrios", para usar a expressão de Hannah Arendt? Como distinguir o certo do errado quando o próprio trabalho de reconhecimento se confronta com zonas de sombra e incerteza?
É muito fácil escrever um livro sobre Heidegger e o nazismo décadas depois do fim da Segunda Guerra, confortavelmente instalado em uma universidade com calefação. O juízo moral se torna muito mais nítido, pois o momento da ação, da discriminação real foi deixado para trás. O conforto do ambiente universitário produz uma certeza afastada do mundo dos que agem. É fácil, assim, julgar. Parafraseando Aristóteles, como julgar caso a caso, em cada particularidade, no instante em que os critérios morais devem discriminar algo na temporalidade do momento e em circunstâncias pouco claras, pouco discrimináveis?
Desanti, com sabedoria, recomendava-me cautela, cuidado e reflexão sobre as condições concretas do juízo moral. A mensagem era a de um ex-comunista que tinha se tornado um cético, um descrente de posições peremptórias, tão em voga entre seus contemporâneos franceses. Eu estava sendo ensinado por um ex-comunista a julgar com prudência os vínculos de Heidegger com o nazismo. Virar à direita significa aqui adotar um suave ceticismo, incomum em um ambiente de esquerda."
Mais ou menos.
Na vida como ela é, existem tantas esquerdas e direitas quanto se pode imaginar, ou melhor, que nem se pode imaginar.
"Por que virei à direita", da Editora 3 Estrelas: esta ótima mas breve coletânea de ensaios abarca perspectivas de direita imaginadas por 3 intelectuais, das tantas possíveis: João Pereira Coutinho, Felipe Pondé e Rosenfield.
Coutinho e Pondé partilham de orientações semelhantes, inspirados no conservadorismo de safra inglesa. Percebe-se que não é a perspectiva mais difundida no Brasil, já que alguns de seus principais teóricos (Burke, Oakeshott) nem têm seus principais textos traduzidos no país.
Coutinho discorre em torno de autores de ciência política. Pondé, por sua vez, parte da filosofia para chegar até a política. Ambos mantém seus estilos já conhecidos em suas colunas no jornal Folha de São Paulo. Acreditem se quiser, há vida inteligente no lado direito da força.
Sobre o texto de Rosenfield, particularmente achei menos útil, por duas razões. A primeira é que o ensaio faz críticas pontuais ao PT, o que deixa o texto um pouco datado, ao contrário dos dois ensaios anteriores, mais atemporais e ricos em teoria. A segunda razão é que Rosenfield fundamenta sua predileção pela direita por causa dos erros da esquerda. Acho pouco cimento para uma construção sólida. Quem é de esquerda pode rebater na mesma moeda, ou seja, sou de esquerda por causa dos erros da direita. Afinal, o exercício de ambos os posicionamentos tem seus defeitos.
Mas um trecho do ensaio de Rosenfield é precioso: mostra que a vida como ela é difere da vida como teoria. É a parte em que Rosenfield tenta criticar o filósofo Heidegger pelo seu apoio ao nazismo:
"Numa visita à França, nos anos 1990, fui convidado por meu orientador de tese, o filósofo Jean-Toussaint Desanti, para um almoço num pequeno restaurante chinês, numa travessa da praça de Sorbonne. Na época, estava no auge a publicação de livros e documentos sobre a relação de Martin Heidegger com o nazismo. A discussão era intensa, e as revelações me deixaram indignado com o filósofo, apesar de eu admirar sua obra. Cheguei ao encontro ansiando por colocar esse assunto na mesa. Desanti ouviu-me calmamente e, com sua costumeira voz pausada, disse-me: "Denis, vou te contar uma história".
Antes, porém, de repetir sua história, conviria caracterizar um pouco o personagem. Desanti nasceu na Córsega, terra de Napoleão, em 1914 e guardou de suas origens naquela terra inóspita uma espécie de dureza. Era um homem de vasta cultura filosófica, não afeito às lutas universitárias pelo poder, das quais, aliás, mantinha distância. Era como se tudo aquilo, na perspectiva do que tinha vivido, fosse pequeno demais e não lhe dissesse respeito. Desanti atravessou boa parte do século XX como comunista. Chegou a assinar um manifesto que declarava ser Stálin o maior matemático de seu tempo. O próprio Desanti, sendo matemático, sabia que tudo aquilo era um embuste. Instado a dar satisfações sobre o manifesto, declarou simplesmente que era o "costume" da época. Outros, é óbvio, não tinham seguido o mesmo "costume". Com o passar dos anos, parecia mais e mais desiludido e cético.
Voltemos à história contada por Desanti, que faleceu em 2002. Durante a Guerra Civil espanhola, dois militantes comunistas franceses foram encarregados de contrabandear armas dos soviéticos aos comunistas espanhóis. Conheciam-se apenas por causa do trabalho partidário e, disciplinados, cumpriam ciosamente sua missão. Seguiram essa rotina de 1936 a 1939, movidos pela convicção na causa e pela obediência ao partido. Terminada a guerra, distanciaram-se um do outro, indo cumprir diferentes tarefas.
Logo depois começou a Segunda Guerra. Um dos militantes recebeu do Partido Comunista francês a missão de matar o chefe da Gestapo da cidade de Bordeaux. Preparou-se minuciosamente e armou a tocaia. Ao mirar o nazista, qual não foi sua surpresa quando reconheceu nele seu antigo camarada da Guerra Civil espanhola.
O que fazer? Deveria mata-lo ou preservá-lo? O que ocorrera? Teria o ex-comunista se convertido ao nazismo? Ou permanecia um comunista e havia se infiltrado na Gestapo, a fim de prestar serviços à Resistência? Como saber, se ele não tinha tempo para dúvidas? Não hesitou, portanto, e matou seu ex-camarada.
Como ter certeza de algo, ainda mais em "tempos sombrios", para usar a expressão de Hannah Arendt? Como distinguir o certo do errado quando o próprio trabalho de reconhecimento se confronta com zonas de sombra e incerteza?
É muito fácil escrever um livro sobre Heidegger e o nazismo décadas depois do fim da Segunda Guerra, confortavelmente instalado em uma universidade com calefação. O juízo moral se torna muito mais nítido, pois o momento da ação, da discriminação real foi deixado para trás. O conforto do ambiente universitário produz uma certeza afastada do mundo dos que agem. É fácil, assim, julgar. Parafraseando Aristóteles, como julgar caso a caso, em cada particularidade, no instante em que os critérios morais devem discriminar algo na temporalidade do momento e em circunstâncias pouco claras, pouco discrimináveis?
Desanti, com sabedoria, recomendava-me cautela, cuidado e reflexão sobre as condições concretas do juízo moral. A mensagem era a de um ex-comunista que tinha se tornado um cético, um descrente de posições peremptórias, tão em voga entre seus contemporâneos franceses. Eu estava sendo ensinado por um ex-comunista a julgar com prudência os vínculos de Heidegger com o nazismo. Virar à direita significa aqui adotar um suave ceticismo, incomum em um ambiente de esquerda."
alguns poemas do livro "Trovar Claro", de Paulo Henriques Britto
Editora Cia. das Letras, edição 2006
que porém não deixasse de ser essa.
(Mas não era isso o que eu ia dizer,
ser a verdade última e total –
e só por isso já não creio nela,
da falsidade do que quer que seja -)
Mas isso já seria uma outra história.
inconsequente de sempre: rabisco
de lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.
Daqui pra frente, as portas sem remédio
E todas as maçãs assassinadas.)
O original é perecível, único,
e muda o tempo todo, e acaba sendo só
a mera ideia do que nunca foi.
das frutas de cera, das segundas vias,
dessas canções baratas cuja autoria
ninguém se dá ao trabalho de reivindicar.
de repente, como as pombas aos pombais,
não voltam. E você não teve tempo.
Porém lá fora a coisa continua,
E quer revanche. Quer tudo. Moral:
Contra os deuses e sua inexistência
de nada valem os DDTs da vida.
nem a lâmina rombuda do tédio
nem o corpo e seus humores vários
e suas untuosas exigências
de serem as coisas tudo e só o que são.
A pele é fina, a carne é permeável.
É duro o amor.
certezas retilíneas como agulhas.
de uma razão sem jaça e sem nervuras,
sem óleos malcheirosos e carnais.
flores estritamente artificiais,
Meu coração se agonia.
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.
que tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.
que suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.
Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.
Não há nada nisso de extraordinário.
É exatamente a conta necessária.
E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo
de Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
não é o mesmo que ontem vi no espelho,
e que no entanto agora anda sumido.
só por honra da firma, e se ressente
que nada significa – é o seu oposto.
Porra. É com você mesmo, seu cínico.)
fecundos, tendo o chão duro
dos insones pela frente,
sabendo-me abandonado, salvo
pelas palavras todas, intervalo
pá única de cal que ora despejo
sobre meus últimos defuntos fecundos.
anjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.
Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,
da pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: todo silêncio é pouco.
SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA
III
Sou uma história, a voz que a conta, e o imenso
desejo de contar outra diversa,que porém não deixasse de ser essa.
Palavra que não digo e que não penso
e no entanto escrevo – eu sou você?(Mas não era isso o que eu ia dizer,
e sim uma outra coisa, obscura e bela,
que sei, com uma certeza visceral,ser a verdade última e total –
e só por isso já não creio nela,
pois a certeza, tal como a memória,
é por si só demonstração sobejada falsidade do que quer que seja -)
Mas isso já seria uma outra história.
(pg23)
VI
Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens
do estar-em-si, do tudo-é-relativo
etc. A mesma grafitageminconsequente de sempre: rabisco
logo existo. –O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejosde lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.
(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
Caramelos e almofadas formidáveis.Daqui pra frente, as portas sem remédio
E todas as maçãs assassinadas.)
(pg 29)
DEZ EXERCÍCIOS PARA OS CINCO DEDOS
III
A imitação do homem
é muito mais real que o dito cujo.O original é perecível, único,
e muda o tempo todo, e acaba sendo só
a mera ideia do que nunca foi.
Já a imitação, não:
ela desfruta da imortalidadedas frutas de cera, das segundas vias,
dessas canções baratas cuja autoria
ninguém se dá ao trabalho de reivindicar.
(pg 51)
VIII
É a vingança dos dias:
antes tão pródigos, tão matinais,de repente, como as pombas aos pombais,
não voltam. E você não teve tempo.
Porém lá fora a coisa continua,
com você ou sem.
Você prefere com: é natural.E quer revanche. Quer tudo. Moral:
Contra os deuses e sua inexistência
de nada valem os DDTs da vida.
(pg 61)
IX
Nem o tempo e seu assédio
nem o cálculo frio dos sentimentosnem a lâmina rombuda do tédio
nem o corpo e seus humores vários
e suas untuosas exigências
- nada pode aplacar a paixão
que não recua ante o supremo horrorde serem as coisas tudo e só o que são.
A pele é fina, a carne é permeável.
É duro o amor.
(pg 63)
IDÍLIO
Um sonho, musculoso e maternal,
um sonho quer pacificar o mundo.
Desejo de formas claras e puras,
de nitidezes simples, minerais,certezas retilíneas como agulhas.
Nada de nebuloso, frouxo ou úmido
há de turvar o brilho do cristalde uma razão sem jaça e sem nervuras,
sem óleos malcheirosos e carnais.
O sonho, sorridente e diurnal,
espargirá sobre um túmulo de dúvidasflores estritamente artificiais,
entre diagonais e ângulos agudos.
O sonho quer estrangular o mundo.
(pg 77)
SONETILHO DE VERÃO
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
(pg 81)
UM POUCO DE STRAUSS
Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.
Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de músicaque tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.
Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédioque suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.
Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.
(pg 85)
BONBONNIÈRE
IV
Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.Não há nada nisso de extraordinário.
A natureza odeia o desperdício,
tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr.É exatamente a conta necessária.
até que alguma solução se encontre.
O que aliás não acontece nunca.E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo
para não perder a esperança e o bonde:
A caixa de bombons. A Marcha húngarade Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.
(pg 101)
MEMENTO MORI
I
Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
(pg 109)
NO ALTO
I
Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)não é o mesmo que ontem vi no espelho,
o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frentee que no entanto agora anda sumido.
Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,só por honra da firma, e se ressente
da obrigação de refletir um rosto
que – fora um ou outro aspecto físicoque nada significa – é o seu oposto.
(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,Porra. É com você mesmo, seu cínico.)
(pg 115)
II
Tendo enterrado finalmente
o último dos meus defuntosfecundos, tendo o chão duro
dos insones pela frente,
caminho transfigurado por entre
os móveis do apartamento,sabendo-me abandonado, salvo
pelas palavras todas, intervalo
entre o vivido e o desejo
que vicejou na terra úmida,pá única de cal que ora despejo
sobre meus últimos defuntos fecundos.
(pg 117)
IV
Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.
Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.
O ter o que dizer é jogo arriscado,
não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,
com sua textura por demais espessa
pra transpassar a tímida peneirada pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: todo silêncio é pouco.
(pg 121)
domingo, 4 de setembro de 2016
meu sentimentos - com spoiler - e alguns trechos do livro "Hanoi" de Adriana Lisboa
a capa de Hanói é belíssima (edição da Alfaguara)
só o trompete.
sozinho o trompete.
o silêncio e o trompete.
em silêncio, o trompete.
o trompete, esperando seu dono.
o trompete, esperando David.
o trompete, sem dono.
acabei de ler e estou segurando a capa, em protesto: acabou.
acabei de ler e estou segurando a capa, por pretexto: não quero me despedir.
e a vida são despedidas. e isso é triste. e a vida são mais que despedidas. menos triste.
há livros que tocam na ferida. "Hanói" assopra de maneira delicada. É um sopro "cool" e sensível de trompete. Seu fraseado musical é simples e bonito.
Leiam alguns trechos:
"Todos os homens são ilhas, mas as ilhas friccionam umas nas outras, se acotovelam, o coqueiro de uma projeta sombra no solo da outra." (pg 31)
"E daí, aliás, se morresse antes da idade correta, apropriada, esperável, desejável?
Eram só uma vida e uma morte e o universo não ia se desequilibrar com isso. Se David levasse em conta a grande sinfonia das coisas acontecendo e depois deixando de acontecer por aí afora, ele não faria falta." (pg 53)
"A morte parecia muito mais estranha: como é que aquilo que era se torna o que não é mais? Como é que uma pessoa, um bicho ou mesmo uma planta com que você convivia, que durante um tempo se esforçou para construir uma existência em torno de preferências, incapacidades, intolerâncias, ciclos, como é que tudo isso se retirava do universo em um instante?" (pg 123)
"Não existia, ele tinha certeza absoluta, um guia de viagem para a última etapa da vida de alguém em algum lugar. Não venderia.
Ou venderia? Poderia ser uma série. Como morrer em Londres. Como morrer em Casablanca.
Os guias indicariam as melhores épocas do ano para fazer isso, as melhores paisagens para se ter diante do rosto, a sombra de árvore ou o quarto de hotel ou pensão mais convidativos, ou quem sabe um prostíbulo, ou quem sabe um barco em que você pudesse ficar oscilando para cá e para lá, para cá e para lá, até o fim. Até acabar.
Não deveria ser nada grandioso. Pelo contrário. Bastaria, talvez, ir ao mercado principal da cidade e se sentar ali, e ficar olhando o movimento. Teria como ser tão simples? Ou a interferência dos outros (ei, aquele cara não parece nada bem, alguém chame a ambulância) era inevitável?" (pg 139)
"O que Huong não entendia era que David tinha começado a pensar em Hanói como uma espécie de cemitério de elefantes. E para o cemitério os elefantes vão sozinhos. As pessoas vão sozinhas para a sua própria morte. Ninguém morre acompanhado." (pg 193)
algumas músicas/álbuns/artistas citadas no livro:
Metamorphos - Dave Holland Quintet (pg 113)
The Shape of Jazz to Come "Lonely Woman" "Focus on Sanity" Ornette Coleman (pg 141)
Anthem - Christian Scott
Time on my hands - Ahmad Hamal, com Israel Crosby e Vernel Fournier (pg 195)
Radio Music Society - Esperanza Spalding (pg 211)
Italian Ocean Song - Frank Haunschild e John Abercrombie (pg 219)
Ralph Towner e Paolo Fresu (pg 224)
Sweet Georgia Brown - Ella Fitzgerald e Duke Ellington Orchestra
só o trompete.
sozinho o trompete.
o silêncio e o trompete.
em silêncio, o trompete.
o trompete, esperando seu dono.
o trompete, esperando David.
o trompete, sem dono.
acabei de ler e estou segurando a capa, em protesto: acabou.
acabei de ler e estou segurando a capa, por pretexto: não quero me despedir.
e a vida são despedidas. e isso é triste. e a vida são mais que despedidas. menos triste.
há livros que tocam na ferida. "Hanói" assopra de maneira delicada. É um sopro "cool" e sensível de trompete. Seu fraseado musical é simples e bonito.
Leiam alguns trechos:
"Todos os homens são ilhas, mas as ilhas friccionam umas nas outras, se acotovelam, o coqueiro de uma projeta sombra no solo da outra." (pg 31)
"E daí, aliás, se morresse antes da idade correta, apropriada, esperável, desejável?
Eram só uma vida e uma morte e o universo não ia se desequilibrar com isso. Se David levasse em conta a grande sinfonia das coisas acontecendo e depois deixando de acontecer por aí afora, ele não faria falta." (pg 53)
"A morte parecia muito mais estranha: como é que aquilo que era se torna o que não é mais? Como é que uma pessoa, um bicho ou mesmo uma planta com que você convivia, que durante um tempo se esforçou para construir uma existência em torno de preferências, incapacidades, intolerâncias, ciclos, como é que tudo isso se retirava do universo em um instante?" (pg 123)
"Não existia, ele tinha certeza absoluta, um guia de viagem para a última etapa da vida de alguém em algum lugar. Não venderia.
Ou venderia? Poderia ser uma série. Como morrer em Londres. Como morrer em Casablanca.
Os guias indicariam as melhores épocas do ano para fazer isso, as melhores paisagens para se ter diante do rosto, a sombra de árvore ou o quarto de hotel ou pensão mais convidativos, ou quem sabe um prostíbulo, ou quem sabe um barco em que você pudesse ficar oscilando para cá e para lá, para cá e para lá, até o fim. Até acabar.
Não deveria ser nada grandioso. Pelo contrário. Bastaria, talvez, ir ao mercado principal da cidade e se sentar ali, e ficar olhando o movimento. Teria como ser tão simples? Ou a interferência dos outros (ei, aquele cara não parece nada bem, alguém chame a ambulância) era inevitável?" (pg 139)
"O que Huong não entendia era que David tinha começado a pensar em Hanói como uma espécie de cemitério de elefantes. E para o cemitério os elefantes vão sozinhos. As pessoas vão sozinhas para a sua própria morte. Ninguém morre acompanhado." (pg 193)
algumas músicas/álbuns/artistas citadas no livro:
Metamorphos - Dave Holland Quintet (pg 113)
The Shape of Jazz to Come "Lonely Woman" "Focus on Sanity" Ornette Coleman (pg 141)
Anthem - Christian Scott
Time on my hands - Ahmad Hamal, com Israel Crosby e Vernel Fournier (pg 195)
Radio Music Society - Esperanza Spalding (pg 211)
Italian Ocean Song - Frank Haunschild e John Abercrombie (pg 219)
Ralph Towner e Paolo Fresu (pg 224)
Sweet Georgia Brown - Ella Fitzgerald e Duke Ellington Orchestra
fragmentos do livro "Albert Camus e o teólogo", de Howard Mumma
Trechos de "Albert Camus e o teólogo" (Albert Camus and the minister), de Howard Mumma, Carrenho Editorial
É justo perguntar porque esperei tnto para publicar esse relato de minhas conversas com Camus - e se, depois de tantos anos, esse relato poderia ser acurado. Quero deixar claro que não mantive conversas regulares com Albert Camus; nossos diálogos foram ocasionais, ao longo de vários anos. Uma coisa era certa: a cada vez que marcava um encontro, o escritor tinha um tema para discussão já definido em seu pensamento.
Durante nossa segunda ou terceira reunião, Camus perguntou se eu concordaria que os nossos encontros se mantivessem confidenciais, e que nenhum registro das datas dos nossos encontros fosse guardado. "Afinal de contas", ele disse, "Você é um sacerdote!" Eu sorri e concordei de imediato.
Sacerdotes geralmente não são conhecidos por quebrarem suas promessas, mas agora, aos 91 anos de idade - e com Camus morto há 40 anos -, estou confiante de que os benefícios de compartilhar a sua história sobrepujam (e muito) a traição da sua confiança. Felizmente, depois de cada conversa com Camus eu fazia copiosas anotações. É a partir dessas notas e de minha memória que reconstruí nossas conversações. Isso não significa que o registro seja literal. Sou culpado de colocar umas poucas palavras na boca de meu conhecido - e de fato também em minha própria - a fim de melhor capturar a essência de nossas sessões.
Por outro lado, não estou tentando minimizar minhas deficiências. Fica claro para mim que, a despeito de quão forte tenha tentado, eu faltei com Camus, e as consequências foram trágicas.
(pag.19)
Seus olhos baixaram mais uma vez e ele olhou para a mesa, movendo a cabeça de um lado para o outro.
- Embora em teoria eu tenha sempre confiado no universo e na humanidade, minha experiência me fez começar, na prática, a perder a fé no seu significado. Alguma coisa está terrivelmente errada. Sou um homem desiludido e exausto. Perdi a fé, perdi a esperança, desde a ascensão de Hitler. É de se admirar que, na minha idade, eu esteja procurando algo em que acreditar? - Ele ergueu os olhos novamente até que eles encontraram os meus. - Perder a vida é uma coisa sem importância. Mas perder o sentido da vida, ver nossa argumentação desaparecer, é insuportável. É impossível viver uma vida sem significado.
... Enquanto eu o observava, percebi que havia nele mais do que curiosidade intelectual. Ele queria mais do que uma compreensão da fé. Ele queria experimentar essa fé, e tê-la agindo em sua vida. (pag.31)
- Estou acompanhando você até agora - respondeu Camus enquanto meneava a cabeça em sinal de afirmação. - Deixe-me perguntar, entretanto: você considera a historia do Jardim do Éden como sendo factual... quer dizer, histórica?
Aquele era um assunto complexo, e poderíamos passar o resto do dia discutindo somente aquilo.
- No que diz respeito à verdade histórica dessa narrativa, há dois métodos de interpretação. Você pode pensar na narrativa como um fato literal: nosso primeiro ancestral era um homem chamado Adão. Adão sucumbiu à tentação oferecida pela esposa. Ele comeu o fruto proibido, cometendo assim o pecado original. Somos todos filhos dele e herdamos sua culpa, portanto estamos todos debaixo da condenação de Deus. Se você vê a história dessa maneira, pensará na queda de Adão como algo que aconteceu há muitos anos atrás. Se a narrativa é um fato histórico, deveríamos odiar Adão por ter colocado toda a humanidade nessa situação. Deveríamos também odiar Deus por nos culpar pelo que o nosso ancestral fez. Para mim, existe um modo melhor de se olhar para essa história: Adão, em hebraico, significa homem. Portanto, o que você tem aqui não é a história do que aconteceu a um homem, mas a dramatização de como as coisas são com todos nós.
Camus ficou empolgado com a ideia.
- Sim, sim, eu tento fazer a mesma coisa com meus próprios escritos. É uma marca de toda a boa literatura. Adão é um espelho da natureza humana.
- Exato. Essa narrativa não é história antiga enterrada em um passado morto. É na realidade uma projeção nossa no ato de sermos nós mesmos. Olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e mal.
- Como dizia Pascal, "o homem é a glória e a escória do universo" - declarou o escritor, sorrindo.
(pag.40)
- Se a Bíblia é vista dessa forma, a despeito do fato de ser composta de livros e capítulos independentes, tudo começa a se encaixar - concluí. - Muitas passagens desconcertantes e até mesmo contraditórias começam a fazer sentido, desde que se tenha em mente que a Bíblia é uma coleção de livros compilada ao longo de mil anos ou mais. Não é de se surpreender, dado esse intervalo de tempo, que a coleção careça de uma ordem perfeita, ou que os autores não compartilhem todos o mesmo ponto de vista.
Camus franziu as sobrancelhas e comentou:
- Não pude deixar de notar em minhas leituras da Bíblia que algumas das histórias são contadas repetidas vezes, e há muitas inconsistências...
- A coisa mais notável a respeito da Bíblia não é que haja tantas diferenças e inconsistências, mas que ela tenha sobrevivido à ausência de um consenso sólido e permanente entre os seus autores. Assim, a Bíblia oferece um registro confiável, mas não infalível, do caráter de Deus e das suas relações com os homens. Eu acredito que todos os seus autores foram inspirados pelo Espírito de Deus, de tal modo que suas próprias habilidades e poderes não foram suspensos ou abolidos, e sim aumentados e desenvolvidos em uma cooperação de suas mentes e espíritos com uma força superior. No final de tudo, podemos chamar a Bíblia de palavra de Deus, mas não de palavras de Deus.
Camus concordou com a cabeça, mas não disse nada. Aparentemente ele estava inseguro sobre como prosseguir. Então, continuei:
- Vem à minha mente o livro do bispo John Robinson, Can we trust the New Testament? Confiar é uma palavra boa. Quando confiamos em uma pessoa, somos capazes de reconhecer as suas piadas como piadas, suas metáforas como metáforas, e suas histórias de pescador como simples histórias que são; entretanto, reconhecemos também que em assuntos importantes ela não irá nos desviar do caminho certo. É a mesma coisa com a Bíblia. A despeito das desqualificações que observamos, ela não irá nos desviar fundamentalmente do caminho correto. Ela permanece o guia definitivo para a fé e a vida cristã. Então, pode-se perguntar, a Bíblia é verdadeira? Devemos confiar nela? Ela é fiel à vida real? A palavra hebraica que nós traduzimos como verdade carrega as conotações de "digno de confiança" e "regularidade, constância" muito mais do que a precisão histórica. Em hebraico, a pessoa verdadeira é aquela na qual você pode confiar. A mesma coisa ocorre com a Bíblia.
(pag.52)
- Sabe, eu tenho ganho muito dinheiro porque, de algum modo, sou capaz de articular a desilusão dentro do homem. Tenho escrito coisas que significam muito para muita gente. Você viu como as pessoas me tratam, Howard. Eu mexi com alguma coisa dentro delas, pois identificaram em meus escritos a angústia e o desespero que todas elas sentem. Falei à insignificância e à incerteza, os princípios básicos daquilo que não tenho certeza se ainda acredito. Isso, mais do que tudo, é o que me aflige. Esta é a raiz do meu desespero.
(pag.65)
- Ele respondeu imediatamente. "A única base da ética é o fato da liberdade." Em seguida, Sartre repetiu a frase com mais ênfase. "A única base da ética é o fato da liberdade. Portanto, qualquer coisa que favorece o crescimento da liberdade é moral e qualquer coisa que prejudica o crescimento da liberdade é imoral." Logo descobri: liberdade é a palavra-chave para se compreender Sartre.
(pag.76)
- Interessante notar que Sartre aceitava o dito de Nietzsche, "Deus está morto". Mas aceitava também a declaração de Dostoievski: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido." Em um mundo sem deus, a condição do homem seria de abandono - uma conclusão que Sartre tomou de Heidegger. Por abandono ele queria dizer que a rejeição de Deus elimina também qualquer possibilidade de encontrar-se valores em algum tipo de paraíso inteligível. "O abandono do homem é uma consequência do fato de que tudo é realmente permitido. Portanto, o homem está desamparado porque não é capaz de encontrar nada para se apoiar dentro ou fora de si mesmo. O homem não tem desculpas. Sua existência precede a sua essência. À parte da sua existência, existe o nada. Existe apenas o presente."
(pag.78)
- De forma contrária à crença popular - explicou o escritor -, eu nunca chamei a mim mesmo de existencialista, mas sempre me identifiquei com esse senso de isolamento e desamparo em meio a um universo hostil. E, como Sartre, tenho buscado encontrar a moral diante do desespero e do prospecto de um universo sem Deus. É como eu falei uma vez a um grupo de monges dominicanos: "Compartilho com vocês da mesma repulsa do mal, mas não compartilho da sua esperança em Deus. E continuo a lutar contra esse universo em que crianças sofrem e morrem."
(pag.81)
Mas enquanto eu revivia ali sentado minha visita a Sartre, um abismo ainda maior apareceu entre eles: Sartre achava que tinha achado as respostas; Camus não, e talvez nunca encontrasse. Para Camus o mistério da vida era uma batalha constante, uma luta contínua para encontrar uma verdade eternamente esquiva, mas que sempre o convidava a tentar mais uma vez.
(pag.82)
- Esse entendimento do bem e do mal era um dos ensinos básicos da filosofia grega conhecida como estoicismo. Esa filosofia tinha como centro o conceito de que um logos - ou razão - divino dirige o desenrolar do cosmos e da história. Uma razão e um propósito divinos englobam tudo que existe. O estoicismo acredita na unidade, harmonia e bondade fundamentais do universo. Na visão dos estóicos, tudo é governado pela lei e pela razão divinas. O julgamento de que existe mal no mundo surge da nossa ignorância do todo e da nossa insensibilidade ao fundamento lógico e ao propósito do todo das coisas.
- Do ponto de vista do conhecimento abrangente de Deus - respondi -, todas as coisas são boas e belas, e refletem uma ordem e propósito fundamentais, mesmo quando tudo que está ao alcance da nossa visão é repulsivo e pernicioso. Cabe a cada um, então,, sintonizar sua mente e sua alma com o logos divino e apreciar a harmonia última das coisas. Desse modo, a pessoa cultiva uma perspectiva divina e é libertada da ansiedade e do medo, pois tem confiança no governo da razão. Claro, segue-se de tudo isso a conhecida doutrina estóica da resignação das coisas aos seus papéis determinados. A ideia recebeu expressão eloquente em Epíteto:
"Lembre-se de que você é um ator em uma peça, e é o autor que escolhe o estilo dela: se ele quer que você faça o papel de um homem pobre, você deve desempenhar o seu papel com todas as suas forças.... Pois a sua incumbência é personificar o papel que foi dado a você, e fazê-lo bem; a escolha do elenco pertence a Outro."
- Epíteto nos encoraja a termos sempre à mão um fragmento como este de Cleantes: "Conduz-me, Zeus, e tu, ó Destino. O que quer que tiverdes fixado como minha sorte eu trilho alegremente. Não o fizesse eu, perverso e infeliz, teria de trilhá-lo ainda assim". Os estóicos representam uma longa tradição de pessoas reflexivas compelidas a optar pelo logos, Deus, e pela neutralidade ao invés de enfrentarem o abandono do mundo por parte de Deus e experimentarem a existência racional - concluí.
(pag.87)
Falei, então, sobre um livro que C. S. Lewis havia escrito alguns anos antes, intitulado O problema do sofrimento. Ele disse: "Se Deus fosse bom, desejaria fazer as suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, poderia fazer o que desejasse..." Em seguida, continuei:
- Acho que é um bom começo rejeitarmos a noção de que onipotente significa capaz de fazer qualquer coisa. Eu sei que a Bíblia nos diz "com Deus, todas as coisas são possíveis", mas essa declaração pressupõe "se as coisas não forem auto-contraditórias". Algumas pessoas podem perguntar se Deus é capaz de fazer uma corda com apenas uma ponta, ou um círculo quadrado, mas essas perguntas não têm sentido. A onipotência de Deus significa a capacidade de fazer tudo que é intrinsecamente possível. Em outras palavras, pode-se atribuir milagres a Deus, mas não absurdos.
- O fato de Deus não ser capaz de realizar o que é autocontraditório não contradiz de modo nenhum a noção de que ele é todo-poderoso e capaz de fazer imperar a sua vontade. Essa é uma constatação interessante. Ela representa a tradição central da filosofia cristã, conforme formulada por Tomás de Aquino: "Nada que implica contradição está sob a onipotência de Deus."
- Há muito se crê que Deus é limitado pelas leis da lógica. Se é absurdo fazer triângulos em que a soma dos ângulos interiores é maior do que 180 graus, é absurdo do mesmo modo esperar que Ele crie seres sem os perigos inerentes ao seu caráter de criaturas. Mesmo Deus não é capaz de criar uma comunidade interdependente de pessoas sem produzir também uma situação em que o mal se alastre. Em outras palavras, Deus não é capaz de criar uma coisa independente e ainda assim ter completo controle sobre ela ou limitá-la. Por exemplo, não podemos ter água que sacie a nossa sede, mas não afogue as pessoas. É impossível haver fogo que aqueça as nossas casas e não queime a nossa carne. Também não é possível para Deus criar mentes que sejam livres e ainda assim incapazes de fazer o mal. Isso não significa que tudo que é criado necessita do mal, mas o que afirmamos é a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus faça criaturas privadas das características e possibilidades tanto do bem quanto do mal.
- Até aqui, estou com você - Albert assentiu com a cabeça. - Continue.
- Deixe-me colocá-lo de outro modo. O que eu defendi foi a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus gere criaturas privadas das características de seres criados. Tais seres criados têm a capacidade de realizar o que é bom e amável, mas também são capazes de gerar o que é maligno. Meu ponto de vista é que, já que vivemos em um mundo que é bom e mau, esse mundo não está pronto, mas em processo de constante elaboração. Como esta é uma criação que está sendo feita, deveríamos esperar dela o que de fato encontramos: deficiência e imperfeição. Assim, embora não ousemos negar a realidade da dor e do sofrimento e da angústia, não precisamos atribuí-los diretamente à vontade e ao propósito de Deus. A não ser, é claro, que caiamos vítimas da ideia falaciosa de que Deus é onipotente no sentido mais rudimentar do termo.
(pag.92)
- Posso lembrar que existe uma segunda pergunta que poderíamos fazer - disse Camus. - A questão é: o que vamos fazer a respeito do sofrimento? Como iremos responder? O sofrimento é dado. Não podemos escapar à sua existência. É como lidamos com o sofrimento que define o que somos. Somos livres. Escolhemos ou sucumbir à nossa realidade ou rebelar-nos e lutar pela felicidade.
Fiquei feliz com o que Albert disse. Não me contive e acrescentei meus próprios pensamentos:
- Que a tragédia e o infortúnio nos conduzam a Deus a fim de acertar as nossas próprias vidas, nosso modo de pensar e de viver. Em outras palavras, que o fato de vivermos em um mundo imperfeito nos leve ao arrependimento. Podemos começar mudando a nós mesmos, e fazendo assim podemos esperar mudar o mundo. O arrependimento é uma resposta ativa, uma meia-volta em direção a Deus, uma mudança de coração e de costumes. Precisamos dar as costas aos nossos interesses e preocupações triviais, limitados e egoístas e trabalhar para evocar o reino de Deus. Devemos nos comprometer como homens e mulheres livres a fazer o que percebemos como vontade de Deus. Deus deseja e precisa dos esforços de cooperação dos seres humanos para que sua vontade perfeita seja realizada.
(pag.94)
Albert começou então a relacionar os tipos de homem que, acreditava ele, poderiam ser usados como modelos de vida. São homens que aceitam a vida como absurda e ainda assim a amam em sua totalidade, a despeito de suas restrições. O que fazia deles grandes homens era que viviam a vida apaixonadamente.
- O primeiro desses modelos é Don Juan - declarou o escritor. Ele tem um apetite pelo amor e pela vida. Ele vive a vida em sua totalidade. O seguinte é o ator. O terceiro é o conquistador. Mas o maior de todos eles é Sísifo. Sua tarefa inútil e sem esperança era, na opinião dos deuses, a pior das punições que podiam infligir sobre o homem. Mas por que eles o puniram? Sísifo, depois que morreu, recebeu permissão do deus do mundo inferior para retornar brevemente ao mundo dos vivos. Ele deixou de honrar a sua palavra e de voltar para a terra dos mortos. Sísifo é um grande herói por seu desdém pelos deuses e seu amor à vida.
- Mas - Camus continuou - sua punição, embora inútil, não deixa de ter significado. A glória do homem é gastar toda sua existência e substância a fim de obter precisamente nada. Sísifo, apesar de saber que nunca atingirá o seu objetivo, continua a tentar. Essa perseverança é sua grandeza. Se o homem não tivesse livre arbítrio, a punição de Sísifo não teria sentido. Entretanto, embora tenha conhecimento de que não é capaz de alcançar sua meta, ele continua a empurrar a pedra morro acima. Quando ela cai, Sísifo simplesmente dá as costas à montanha para começar mais uma vez.
(pag.97)
De fato, essa é uma doutrina cristã: a aceitação dos males do mundo e a afirmação cristã de que ninguém deve render-se diante da injustiça e do sofrimento. Ao contrário, Camus requeria uma revolta constante e ativa contra todos os tipos de injustiça e sofrimento. É verdade que ele dizia que esses heróis eram absurdos. Eles sabem que vivem em um mundo absurdo. Sabem que são problemáticos e morrerão. Sabem que o mundo é imperfeito. Sabem que tudo no mundo tem livre arbítrio, e que dessa liberdade em o desespero. Todavia, no meio de tudo isso, Camus dizia: "Sou um otimista". Ele era pessimista quanto ao destino do homem, mas otimista quanto ao homem em si.
(pag.99)
- Para mim isso é tudo que existe: simplesmente continuar vivendo - sentenciou o escritor. - A única esperança que posso oferecer é simplesmente viver. A repetição, inquirindo cada dia com o puro ato de viver. Recomeçar vez após outra até a morte é tudo que existe. Ainda assim, Howard, eu percebo que algo está faltando. Existe mais?
(pag.100)
Fiquei me perguntando novamente se havia cometido um erro em não respeitar o seu pedido. Parecia a decisão certa na ocasião, mas se eu soubesse que seria minha última chance de rebatizá-lo como ele queria, talvez minha decisão tivesse sido outra. Eu não estava certo do que me incomodava. Eu havia dado a entender que o batismo era um evento que normalmente só ocorria uma vez, e eu com certeza não estava preocupado com a sua alma. Deus havia separado um lugar especial para ele, eu estava certo. Camus era um homem verdadeiramente decente e compassivo, e havia no cerne de todas as suas obras e lutas com a fé e a filosofia uma preocupação genuína com a posição do seu próximo.
(pag.115)
Em seu livro Albert Camus: uma vida, por exemplo, o biógrafo Olivier Todd afirma que Sartre, Simone de Beauvoir e Camus possuíam abordagens diferentes em relação à ideia de Deus:
Sartre, Simone e Camus não têm a mesma atitude diante da ideia de Deus. São todos ateus, os sartrianos com satisfação, Camus quase que com inquietude e perplexidade. Sartre desvencilhou-se de Deus, velho berloque filosófico, da religião e do sagrado há muito tempo. (...) Camus tenta compreender a fé. Para Sartre esta grande superstição não merece atenção. (...) Camus não discute sobre Deus e sobre a graça com Sartre. Nem sobre o sagrado, como poderia fazer com [André] Malraux.
(pag. 122)
É justo perguntar porque esperei tnto para publicar esse relato de minhas conversas com Camus - e se, depois de tantos anos, esse relato poderia ser acurado. Quero deixar claro que não mantive conversas regulares com Albert Camus; nossos diálogos foram ocasionais, ao longo de vários anos. Uma coisa era certa: a cada vez que marcava um encontro, o escritor tinha um tema para discussão já definido em seu pensamento.
Durante nossa segunda ou terceira reunião, Camus perguntou se eu concordaria que os nossos encontros se mantivessem confidenciais, e que nenhum registro das datas dos nossos encontros fosse guardado. "Afinal de contas", ele disse, "Você é um sacerdote!" Eu sorri e concordei de imediato.
Sacerdotes geralmente não são conhecidos por quebrarem suas promessas, mas agora, aos 91 anos de idade - e com Camus morto há 40 anos -, estou confiante de que os benefícios de compartilhar a sua história sobrepujam (e muito) a traição da sua confiança. Felizmente, depois de cada conversa com Camus eu fazia copiosas anotações. É a partir dessas notas e de minha memória que reconstruí nossas conversações. Isso não significa que o registro seja literal. Sou culpado de colocar umas poucas palavras na boca de meu conhecido - e de fato também em minha própria - a fim de melhor capturar a essência de nossas sessões.
Por outro lado, não estou tentando minimizar minhas deficiências. Fica claro para mim que, a despeito de quão forte tenha tentado, eu faltei com Camus, e as consequências foram trágicas.
(pag.19)
Seus olhos baixaram mais uma vez e ele olhou para a mesa, movendo a cabeça de um lado para o outro.
- Embora em teoria eu tenha sempre confiado no universo e na humanidade, minha experiência me fez começar, na prática, a perder a fé no seu significado. Alguma coisa está terrivelmente errada. Sou um homem desiludido e exausto. Perdi a fé, perdi a esperança, desde a ascensão de Hitler. É de se admirar que, na minha idade, eu esteja procurando algo em que acreditar? - Ele ergueu os olhos novamente até que eles encontraram os meus. - Perder a vida é uma coisa sem importância. Mas perder o sentido da vida, ver nossa argumentação desaparecer, é insuportável. É impossível viver uma vida sem significado.
... Enquanto eu o observava, percebi que havia nele mais do que curiosidade intelectual. Ele queria mais do que uma compreensão da fé. Ele queria experimentar essa fé, e tê-la agindo em sua vida. (pag.31)
- Estou acompanhando você até agora - respondeu Camus enquanto meneava a cabeça em sinal de afirmação. - Deixe-me perguntar, entretanto: você considera a historia do Jardim do Éden como sendo factual... quer dizer, histórica?
Aquele era um assunto complexo, e poderíamos passar o resto do dia discutindo somente aquilo.
- No que diz respeito à verdade histórica dessa narrativa, há dois métodos de interpretação. Você pode pensar na narrativa como um fato literal: nosso primeiro ancestral era um homem chamado Adão. Adão sucumbiu à tentação oferecida pela esposa. Ele comeu o fruto proibido, cometendo assim o pecado original. Somos todos filhos dele e herdamos sua culpa, portanto estamos todos debaixo da condenação de Deus. Se você vê a história dessa maneira, pensará na queda de Adão como algo que aconteceu há muitos anos atrás. Se a narrativa é um fato histórico, deveríamos odiar Adão por ter colocado toda a humanidade nessa situação. Deveríamos também odiar Deus por nos culpar pelo que o nosso ancestral fez. Para mim, existe um modo melhor de se olhar para essa história: Adão, em hebraico, significa homem. Portanto, o que você tem aqui não é a história do que aconteceu a um homem, mas a dramatização de como as coisas são com todos nós.
Camus ficou empolgado com a ideia.
- Sim, sim, eu tento fazer a mesma coisa com meus próprios escritos. É uma marca de toda a boa literatura. Adão é um espelho da natureza humana.
- Exato. Essa narrativa não é história antiga enterrada em um passado morto. É na realidade uma projeção nossa no ato de sermos nós mesmos. Olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e mal.
- Como dizia Pascal, "o homem é a glória e a escória do universo" - declarou o escritor, sorrindo.
(pag.40)
- Se a Bíblia é vista dessa forma, a despeito do fato de ser composta de livros e capítulos independentes, tudo começa a se encaixar - concluí. - Muitas passagens desconcertantes e até mesmo contraditórias começam a fazer sentido, desde que se tenha em mente que a Bíblia é uma coleção de livros compilada ao longo de mil anos ou mais. Não é de se surpreender, dado esse intervalo de tempo, que a coleção careça de uma ordem perfeita, ou que os autores não compartilhem todos o mesmo ponto de vista.
Camus franziu as sobrancelhas e comentou:
- Não pude deixar de notar em minhas leituras da Bíblia que algumas das histórias são contadas repetidas vezes, e há muitas inconsistências...
- A coisa mais notável a respeito da Bíblia não é que haja tantas diferenças e inconsistências, mas que ela tenha sobrevivido à ausência de um consenso sólido e permanente entre os seus autores. Assim, a Bíblia oferece um registro confiável, mas não infalível, do caráter de Deus e das suas relações com os homens. Eu acredito que todos os seus autores foram inspirados pelo Espírito de Deus, de tal modo que suas próprias habilidades e poderes não foram suspensos ou abolidos, e sim aumentados e desenvolvidos em uma cooperação de suas mentes e espíritos com uma força superior. No final de tudo, podemos chamar a Bíblia de palavra de Deus, mas não de palavras de Deus.
Camus concordou com a cabeça, mas não disse nada. Aparentemente ele estava inseguro sobre como prosseguir. Então, continuei:
- Vem à minha mente o livro do bispo John Robinson, Can we trust the New Testament? Confiar é uma palavra boa. Quando confiamos em uma pessoa, somos capazes de reconhecer as suas piadas como piadas, suas metáforas como metáforas, e suas histórias de pescador como simples histórias que são; entretanto, reconhecemos também que em assuntos importantes ela não irá nos desviar do caminho certo. É a mesma coisa com a Bíblia. A despeito das desqualificações que observamos, ela não irá nos desviar fundamentalmente do caminho correto. Ela permanece o guia definitivo para a fé e a vida cristã. Então, pode-se perguntar, a Bíblia é verdadeira? Devemos confiar nela? Ela é fiel à vida real? A palavra hebraica que nós traduzimos como verdade carrega as conotações de "digno de confiança" e "regularidade, constância" muito mais do que a precisão histórica. Em hebraico, a pessoa verdadeira é aquela na qual você pode confiar. A mesma coisa ocorre com a Bíblia.
(pag.52)
- Sabe, eu tenho ganho muito dinheiro porque, de algum modo, sou capaz de articular a desilusão dentro do homem. Tenho escrito coisas que significam muito para muita gente. Você viu como as pessoas me tratam, Howard. Eu mexi com alguma coisa dentro delas, pois identificaram em meus escritos a angústia e o desespero que todas elas sentem. Falei à insignificância e à incerteza, os princípios básicos daquilo que não tenho certeza se ainda acredito. Isso, mais do que tudo, é o que me aflige. Esta é a raiz do meu desespero.
(pag.65)
- Ele respondeu imediatamente. "A única base da ética é o fato da liberdade." Em seguida, Sartre repetiu a frase com mais ênfase. "A única base da ética é o fato da liberdade. Portanto, qualquer coisa que favorece o crescimento da liberdade é moral e qualquer coisa que prejudica o crescimento da liberdade é imoral." Logo descobri: liberdade é a palavra-chave para se compreender Sartre.
(pag.76)
- Interessante notar que Sartre aceitava o dito de Nietzsche, "Deus está morto". Mas aceitava também a declaração de Dostoievski: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido." Em um mundo sem deus, a condição do homem seria de abandono - uma conclusão que Sartre tomou de Heidegger. Por abandono ele queria dizer que a rejeição de Deus elimina também qualquer possibilidade de encontrar-se valores em algum tipo de paraíso inteligível. "O abandono do homem é uma consequência do fato de que tudo é realmente permitido. Portanto, o homem está desamparado porque não é capaz de encontrar nada para se apoiar dentro ou fora de si mesmo. O homem não tem desculpas. Sua existência precede a sua essência. À parte da sua existência, existe o nada. Existe apenas o presente."
(pag.78)
- De forma contrária à crença popular - explicou o escritor -, eu nunca chamei a mim mesmo de existencialista, mas sempre me identifiquei com esse senso de isolamento e desamparo em meio a um universo hostil. E, como Sartre, tenho buscado encontrar a moral diante do desespero e do prospecto de um universo sem Deus. É como eu falei uma vez a um grupo de monges dominicanos: "Compartilho com vocês da mesma repulsa do mal, mas não compartilho da sua esperança em Deus. E continuo a lutar contra esse universo em que crianças sofrem e morrem."
(pag.81)
Mas enquanto eu revivia ali sentado minha visita a Sartre, um abismo ainda maior apareceu entre eles: Sartre achava que tinha achado as respostas; Camus não, e talvez nunca encontrasse. Para Camus o mistério da vida era uma batalha constante, uma luta contínua para encontrar uma verdade eternamente esquiva, mas que sempre o convidava a tentar mais uma vez.
(pag.82)
- Esse entendimento do bem e do mal era um dos ensinos básicos da filosofia grega conhecida como estoicismo. Esa filosofia tinha como centro o conceito de que um logos - ou razão - divino dirige o desenrolar do cosmos e da história. Uma razão e um propósito divinos englobam tudo que existe. O estoicismo acredita na unidade, harmonia e bondade fundamentais do universo. Na visão dos estóicos, tudo é governado pela lei e pela razão divinas. O julgamento de que existe mal no mundo surge da nossa ignorância do todo e da nossa insensibilidade ao fundamento lógico e ao propósito do todo das coisas.
- Do ponto de vista do conhecimento abrangente de Deus - respondi -, todas as coisas são boas e belas, e refletem uma ordem e propósito fundamentais, mesmo quando tudo que está ao alcance da nossa visão é repulsivo e pernicioso. Cabe a cada um, então,, sintonizar sua mente e sua alma com o logos divino e apreciar a harmonia última das coisas. Desse modo, a pessoa cultiva uma perspectiva divina e é libertada da ansiedade e do medo, pois tem confiança no governo da razão. Claro, segue-se de tudo isso a conhecida doutrina estóica da resignação das coisas aos seus papéis determinados. A ideia recebeu expressão eloquente em Epíteto:
"Lembre-se de que você é um ator em uma peça, e é o autor que escolhe o estilo dela: se ele quer que você faça o papel de um homem pobre, você deve desempenhar o seu papel com todas as suas forças.... Pois a sua incumbência é personificar o papel que foi dado a você, e fazê-lo bem; a escolha do elenco pertence a Outro."
- Epíteto nos encoraja a termos sempre à mão um fragmento como este de Cleantes: "Conduz-me, Zeus, e tu, ó Destino. O que quer que tiverdes fixado como minha sorte eu trilho alegremente. Não o fizesse eu, perverso e infeliz, teria de trilhá-lo ainda assim". Os estóicos representam uma longa tradição de pessoas reflexivas compelidas a optar pelo logos, Deus, e pela neutralidade ao invés de enfrentarem o abandono do mundo por parte de Deus e experimentarem a existência racional - concluí.
(pag.87)
Falei, então, sobre um livro que C. S. Lewis havia escrito alguns anos antes, intitulado O problema do sofrimento. Ele disse: "Se Deus fosse bom, desejaria fazer as suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, poderia fazer o que desejasse..." Em seguida, continuei:
- Acho que é um bom começo rejeitarmos a noção de que onipotente significa capaz de fazer qualquer coisa. Eu sei que a Bíblia nos diz "com Deus, todas as coisas são possíveis", mas essa declaração pressupõe "se as coisas não forem auto-contraditórias". Algumas pessoas podem perguntar se Deus é capaz de fazer uma corda com apenas uma ponta, ou um círculo quadrado, mas essas perguntas não têm sentido. A onipotência de Deus significa a capacidade de fazer tudo que é intrinsecamente possível. Em outras palavras, pode-se atribuir milagres a Deus, mas não absurdos.
- O fato de Deus não ser capaz de realizar o que é autocontraditório não contradiz de modo nenhum a noção de que ele é todo-poderoso e capaz de fazer imperar a sua vontade. Essa é uma constatação interessante. Ela representa a tradição central da filosofia cristã, conforme formulada por Tomás de Aquino: "Nada que implica contradição está sob a onipotência de Deus."
- Há muito se crê que Deus é limitado pelas leis da lógica. Se é absurdo fazer triângulos em que a soma dos ângulos interiores é maior do que 180 graus, é absurdo do mesmo modo esperar que Ele crie seres sem os perigos inerentes ao seu caráter de criaturas. Mesmo Deus não é capaz de criar uma comunidade interdependente de pessoas sem produzir também uma situação em que o mal se alastre. Em outras palavras, Deus não é capaz de criar uma coisa independente e ainda assim ter completo controle sobre ela ou limitá-la. Por exemplo, não podemos ter água que sacie a nossa sede, mas não afogue as pessoas. É impossível haver fogo que aqueça as nossas casas e não queime a nossa carne. Também não é possível para Deus criar mentes que sejam livres e ainda assim incapazes de fazer o mal. Isso não significa que tudo que é criado necessita do mal, mas o que afirmamos é a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus faça criaturas privadas das características e possibilidades tanto do bem quanto do mal.
- Até aqui, estou com você - Albert assentiu com a cabeça. - Continue.
- Deixe-me colocá-lo de outro modo. O que eu defendi foi a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus gere criaturas privadas das características de seres criados. Tais seres criados têm a capacidade de realizar o que é bom e amável, mas também são capazes de gerar o que é maligno. Meu ponto de vista é que, já que vivemos em um mundo que é bom e mau, esse mundo não está pronto, mas em processo de constante elaboração. Como esta é uma criação que está sendo feita, deveríamos esperar dela o que de fato encontramos: deficiência e imperfeição. Assim, embora não ousemos negar a realidade da dor e do sofrimento e da angústia, não precisamos atribuí-los diretamente à vontade e ao propósito de Deus. A não ser, é claro, que caiamos vítimas da ideia falaciosa de que Deus é onipotente no sentido mais rudimentar do termo.
(pag.92)
- Posso lembrar que existe uma segunda pergunta que poderíamos fazer - disse Camus. - A questão é: o que vamos fazer a respeito do sofrimento? Como iremos responder? O sofrimento é dado. Não podemos escapar à sua existência. É como lidamos com o sofrimento que define o que somos. Somos livres. Escolhemos ou sucumbir à nossa realidade ou rebelar-nos e lutar pela felicidade.
Fiquei feliz com o que Albert disse. Não me contive e acrescentei meus próprios pensamentos:
- Que a tragédia e o infortúnio nos conduzam a Deus a fim de acertar as nossas próprias vidas, nosso modo de pensar e de viver. Em outras palavras, que o fato de vivermos em um mundo imperfeito nos leve ao arrependimento. Podemos começar mudando a nós mesmos, e fazendo assim podemos esperar mudar o mundo. O arrependimento é uma resposta ativa, uma meia-volta em direção a Deus, uma mudança de coração e de costumes. Precisamos dar as costas aos nossos interesses e preocupações triviais, limitados e egoístas e trabalhar para evocar o reino de Deus. Devemos nos comprometer como homens e mulheres livres a fazer o que percebemos como vontade de Deus. Deus deseja e precisa dos esforços de cooperação dos seres humanos para que sua vontade perfeita seja realizada.
(pag.94)
Albert começou então a relacionar os tipos de homem que, acreditava ele, poderiam ser usados como modelos de vida. São homens que aceitam a vida como absurda e ainda assim a amam em sua totalidade, a despeito de suas restrições. O que fazia deles grandes homens era que viviam a vida apaixonadamente.
- O primeiro desses modelos é Don Juan - declarou o escritor. Ele tem um apetite pelo amor e pela vida. Ele vive a vida em sua totalidade. O seguinte é o ator. O terceiro é o conquistador. Mas o maior de todos eles é Sísifo. Sua tarefa inútil e sem esperança era, na opinião dos deuses, a pior das punições que podiam infligir sobre o homem. Mas por que eles o puniram? Sísifo, depois que morreu, recebeu permissão do deus do mundo inferior para retornar brevemente ao mundo dos vivos. Ele deixou de honrar a sua palavra e de voltar para a terra dos mortos. Sísifo é um grande herói por seu desdém pelos deuses e seu amor à vida.
- Mas - Camus continuou - sua punição, embora inútil, não deixa de ter significado. A glória do homem é gastar toda sua existência e substância a fim de obter precisamente nada. Sísifo, apesar de saber que nunca atingirá o seu objetivo, continua a tentar. Essa perseverança é sua grandeza. Se o homem não tivesse livre arbítrio, a punição de Sísifo não teria sentido. Entretanto, embora tenha conhecimento de que não é capaz de alcançar sua meta, ele continua a empurrar a pedra morro acima. Quando ela cai, Sísifo simplesmente dá as costas à montanha para começar mais uma vez.
(pag.97)
De fato, essa é uma doutrina cristã: a aceitação dos males do mundo e a afirmação cristã de que ninguém deve render-se diante da injustiça e do sofrimento. Ao contrário, Camus requeria uma revolta constante e ativa contra todos os tipos de injustiça e sofrimento. É verdade que ele dizia que esses heróis eram absurdos. Eles sabem que vivem em um mundo absurdo. Sabem que são problemáticos e morrerão. Sabem que o mundo é imperfeito. Sabem que tudo no mundo tem livre arbítrio, e que dessa liberdade em o desespero. Todavia, no meio de tudo isso, Camus dizia: "Sou um otimista". Ele era pessimista quanto ao destino do homem, mas otimista quanto ao homem em si.
(pag.99)
- Para mim isso é tudo que existe: simplesmente continuar vivendo - sentenciou o escritor. - A única esperança que posso oferecer é simplesmente viver. A repetição, inquirindo cada dia com o puro ato de viver. Recomeçar vez após outra até a morte é tudo que existe. Ainda assim, Howard, eu percebo que algo está faltando. Existe mais?
(pag.100)
Fiquei me perguntando novamente se havia cometido um erro em não respeitar o seu pedido. Parecia a decisão certa na ocasião, mas se eu soubesse que seria minha última chance de rebatizá-lo como ele queria, talvez minha decisão tivesse sido outra. Eu não estava certo do que me incomodava. Eu havia dado a entender que o batismo era um evento que normalmente só ocorria uma vez, e eu com certeza não estava preocupado com a sua alma. Deus havia separado um lugar especial para ele, eu estava certo. Camus era um homem verdadeiramente decente e compassivo, e havia no cerne de todas as suas obras e lutas com a fé e a filosofia uma preocupação genuína com a posição do seu próximo.
(pag.115)
Em seu livro Albert Camus: uma vida, por exemplo, o biógrafo Olivier Todd afirma que Sartre, Simone de Beauvoir e Camus possuíam abordagens diferentes em relação à ideia de Deus:
Sartre, Simone e Camus não têm a mesma atitude diante da ideia de Deus. São todos ateus, os sartrianos com satisfação, Camus quase que com inquietude e perplexidade. Sartre desvencilhou-se de Deus, velho berloque filosófico, da religião e do sagrado há muito tempo. (...) Camus tenta compreender a fé. Para Sartre esta grande superstição não merece atenção. (...) Camus não discute sobre Deus e sobre a graça com Sartre. Nem sobre o sagrado, como poderia fazer com [André] Malraux.
(pag. 122)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Minha mente conservadora, por Felipe Pondé
A expressão acima é uma citação do maior livro de história do pensamento conservador já escrito: The Conservative Mind, de Russel Kirk. Faço uso dela aqui para indicar sinteticamente minha opção pelo pensamento conservador britânico (também marcado por Tocqueville, francês de têmpera britânica).
Termos como "mente", "espírito", "ideia", "sensibilidade" e "atitude" são comuns para definir o pensamento conservador. Eles respondem à dificuldade de resumir uma tradição que nasce como reação à Revolução Francesa no século XVIII, recolhendo questões anteriores a ela, e que a partir daí se transformará numa verdadeira escola de trincheira.
Na abertura de seu livro, Kirk faz a melhor síntese do que seria uma mente ou um espírito conservador (pessoalmente prefiro a expressão de Oakeshott, "sensibilidade conservadora"):
> Desconfiar de grandes sistemas de pensamento e preferir formulações baseadas no que a empiria humana nos oferece ao longo da história.
> Problemas políticos são, em sua base, morais ou religiosos.
> Crer numa ordem transcendente ou pelo menos não plenamente racionalista que cause impacto na história e nas sociedades.
> Afeto pela variedade infinita da humanidade e por sua misteriosa manifestação nas pessoas e nas sociedades.
> Recusa do "logicalismo" (racionalismo) e da uniformidade como visão do ser humano.
> Opção por uma sociedade com hierarquias e classes que representam as diferenças comuns entre os seres humanos.
> A liberdade só se concretiza na existência da propriedade privada como modo de restrição ao poder do governo e da sociedade sobre os indivíduos.
> Recusa, como dizia Burke, dos "sofistas, calculadores e economistas", que são representantes do racionalismo iluminista francês e de seus herdeiros da esquerda.
> As necessárias mudanças no mundo não podem ser fruto de uma teoria de gabinete nem ser pautadas por alguma ideia de inovação do mundo e do homem. Tampouco a revolução é melhor do que a reforma gradual e pontual, visando a problemas específicos e não advindos de alguma teoria wholesale (do tipo que descreve a vida no "atacado") sobre como o mundo deveria fazer para ser perfeito.
> Recusa do "melhorismo" ou da ideia de que o homem caminha progressivamente para a perfeição.
> Defesa do hábito contra a razão como critério puro da vida (o racionalismo, novamente).
> Recusa do chamado levelling político e econômico, ou seja, de uma igualdade abrangente das sociedades e dos indivíduos.
Enfim, hábito, afeto, empiria e não fé na capacidade de a razão moldar o mundo e os homens. Suspeita de que, ao final, uma filosofia política fala, acima de tudo, do caráter de quem a escolhe.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Termos como "mente", "espírito", "ideia", "sensibilidade" e "atitude" são comuns para definir o pensamento conservador. Eles respondem à dificuldade de resumir uma tradição que nasce como reação à Revolução Francesa no século XVIII, recolhendo questões anteriores a ela, e que a partir daí se transformará numa verdadeira escola de trincheira.
Na abertura de seu livro, Kirk faz a melhor síntese do que seria uma mente ou um espírito conservador (pessoalmente prefiro a expressão de Oakeshott, "sensibilidade conservadora"):
> Desconfiar de grandes sistemas de pensamento e preferir formulações baseadas no que a empiria humana nos oferece ao longo da história.
> Problemas políticos são, em sua base, morais ou religiosos.
> Crer numa ordem transcendente ou pelo menos não plenamente racionalista que cause impacto na história e nas sociedades.
> Afeto pela variedade infinita da humanidade e por sua misteriosa manifestação nas pessoas e nas sociedades.
> Recusa do "logicalismo" (racionalismo) e da uniformidade como visão do ser humano.
> Opção por uma sociedade com hierarquias e classes que representam as diferenças comuns entre os seres humanos.
> A liberdade só se concretiza na existência da propriedade privada como modo de restrição ao poder do governo e da sociedade sobre os indivíduos.
> Recusa, como dizia Burke, dos "sofistas, calculadores e economistas", que são representantes do racionalismo iluminista francês e de seus herdeiros da esquerda.
> As necessárias mudanças no mundo não podem ser fruto de uma teoria de gabinete nem ser pautadas por alguma ideia de inovação do mundo e do homem. Tampouco a revolução é melhor do que a reforma gradual e pontual, visando a problemas específicos e não advindos de alguma teoria wholesale (do tipo que descreve a vida no "atacado") sobre como o mundo deveria fazer para ser perfeito.
> Recusa do "melhorismo" ou da ideia de que o homem caminha progressivamente para a perfeição.
> Defesa do hábito contra a razão como critério puro da vida (o racionalismo, novamente).
> Recusa do chamado levelling político e econômico, ou seja, de uma igualdade abrangente das sociedades e dos indivíduos.
Enfim, hábito, afeto, empiria e não fé na capacidade de a razão moldar o mundo e os homens. Suspeita de que, ao final, uma filosofia política fala, acima de tudo, do caráter de quem a escolhe.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Michael Oakeshott: a política da fé versus a política do ceticismo, por Felipe Pondé
Para encerrar esta pequena lista de alguns patriarcas formadores de minha opção pelo pensamento conservador em política, menciono Michael Oakeshott e sua intuição certeira acerca da neurose de perfeição que a sociedade egressa do racionalismo francês apresenta.
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
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