segunda-feira, 5 de setembro de 2016

alguns poemas do livro "Trovar Claro", de Paulo Henriques Britto

Editora Cia. das Letras, edição 2006
SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA

III

Sou uma história, a voz que a conta, e o imenso
desejo de contar outra diversa,
que porém não deixasse de ser essa.

Palavra que não digo e que não penso
e no entanto escrevo – eu sou você?
(Mas não era isso o que eu ia dizer,

e sim uma outra coisa, obscura e bela,
que sei, com uma certeza visceral,
ser a verdade última e total –
e só por isso já não creio nela,

pois a certeza, tal como a memória,
é por si só demonstração sobeja
da falsidade do que quer que seja -)
Mas isso já seria uma outra história.

(pg23)


VI

Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens

do estar-em-si, do tudo-é-relativo
etc. A mesma grafitagem
inconsequente de sempre: rabisco

logo existo. –O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejos
de lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.

(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
Caramelos e almofadas formidáveis.
Daqui pra frente, as portas sem remédio
E todas as maçãs assassinadas.)

(pg 29)


DEZ EXERCÍCIOS PARA OS CINCO DEDOS

III

A imitação do homem
é muito mais real que o dito cujo.
O original é perecível, único,
e muda o tempo todo, e acaba sendo só
a mera ideia do que nunca foi.

Já a imitação, não:
ela desfruta da imortalidade
das frutas de cera, das segundas vias,
dessas canções baratas cuja autoria
ninguém se dá ao trabalho de reivindicar.

(pg 51)


VIII

É a vingança dos dias:
antes tão pródigos, tão matinais,
de repente, como as pombas aos pombais,
não voltam. E você não teve tempo.
Porém lá fora a coisa continua,

com você ou sem.
Você prefere com: é natural.
E quer revanche. Quer tudo. Moral:
Contra os deuses e sua inexistência
de nada valem os DDTs da vida.

(pg 61)


IX

Nem  o tempo e seu assédio
nem o cálculo frio dos sentimentos
nem a lâmina rombuda do tédio
nem o corpo e seus humores vários
e suas untuosas exigências

- nada pode aplacar a paixão
que não recua ante o supremo horror
de serem as coisas tudo e só o que são.
A pele é fina, a carne é permeável.
É duro o amor.

(pg 63)


IDÍLIO

Um sonho, musculoso e maternal,
um sonho quer pacificar o mundo.

Desejo de formas claras e puras,
de nitidezes simples, minerais,
certezas retilíneas como agulhas.

Nada de nebuloso, frouxo ou úmido
há de turvar o brilho do cristal
de uma razão sem jaça e sem nervuras,
sem óleos malcheirosos e carnais.

O sonho, sorridente e diurnal,
espargirá sobre um túmulo de dúvidas
flores estritamente artificiais,

entre diagonais e ângulos agudos.
O sonho quer estrangular o mundo.

(pg 77)


SONETILHO DE VERÃO

Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.

A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.

(pg 81)


UM POUCO DE STRAUSS

Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.
Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.

Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de música
que tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.

Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédio
que suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.

Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.

(pg 85)


BONBONNIÈRE

IV

Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.
Não há nada nisso de extraordinário.

A natureza odeia o desperdício,
tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr.
É exatamente a conta necessária.

até que alguma solução se encontre.
O que aliás não acontece nunca.
E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo

para não perder a esperança e o bonde:
A caixa de bombons. A Marcha húngara
de Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.

(pg 101)


MEMENTO MORI

I

Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.

Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.

(pg 109)


NO ALTO

I

Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)
não é o mesmo que ontem vi no espelho,

o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frente
e que no entanto agora anda sumido.

Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,
só por honra da firma, e se ressente

da obrigação de refletir um rosto
que – fora um ou outro aspecto físico
que nada significa – é o seu oposto.

(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,
Porra. É com você mesmo, seu cínico.)

(pg 115)


II

Tendo enterrado finalmente
o último dos meus defuntos
fecundos, tendo o chão duro
dos insones pela frente,

caminho transfigurado por entre
os móveis do apartamento,
sabendo-me abandonado, salvo
pelas palavras todas, intervalo

entre o vivido e o desejo
que vicejou na terra úmida,
pá única de cal que ora despejo
sobre meus últimos defuntos fecundos.

(pg 117)


IV

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.
Depois de um certo número de páginas
anjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.

O ter o que dizer é jogo arriscado,
não se resolve com um só lance de dados.
Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,

com sua textura por demais espessa
pra transpassar a tímida peneira
da pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: todo silêncio é pouco.

(pg 121)

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