SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA
III
Sou uma história, a voz que a conta, e o imenso
desejo de contar outra diversa,que porém não deixasse de ser essa.
Palavra que não digo e que não penso
e no entanto escrevo – eu sou você?(Mas não era isso o que eu ia dizer,
e sim uma outra coisa, obscura e bela,
que sei, com uma certeza visceral,ser a verdade última e total –
e só por isso já não creio nela,
pois a certeza, tal como a memória,
é por si só demonstração sobejada falsidade do que quer que seja -)
Mas isso já seria uma outra história.
(pg23)
VI
Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens
do estar-em-si, do tudo-é-relativo
etc. A mesma grafitageminconsequente de sempre: rabisco
logo existo. –O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejosde lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.
(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
Caramelos e almofadas formidáveis.Daqui pra frente, as portas sem remédio
E todas as maçãs assassinadas.)
(pg 29)
DEZ EXERCÍCIOS PARA OS CINCO DEDOS
III
A imitação do homem
é muito mais real que o dito cujo.O original é perecível, único,
e muda o tempo todo, e acaba sendo só
a mera ideia do que nunca foi.
Já a imitação, não:
ela desfruta da imortalidadedas frutas de cera, das segundas vias,
dessas canções baratas cuja autoria
ninguém se dá ao trabalho de reivindicar.
(pg 51)
VIII
É a vingança dos dias:
antes tão pródigos, tão matinais,de repente, como as pombas aos pombais,
não voltam. E você não teve tempo.
Porém lá fora a coisa continua,
com você ou sem.
Você prefere com: é natural.E quer revanche. Quer tudo. Moral:
Contra os deuses e sua inexistência
de nada valem os DDTs da vida.
(pg 61)
IX
Nem o tempo e seu assédio
nem o cálculo frio dos sentimentosnem a lâmina rombuda do tédio
nem o corpo e seus humores vários
e suas untuosas exigências
- nada pode aplacar a paixão
que não recua ante o supremo horrorde serem as coisas tudo e só o que são.
A pele é fina, a carne é permeável.
É duro o amor.
(pg 63)
IDÍLIO
Um sonho, musculoso e maternal,
um sonho quer pacificar o mundo.
Desejo de formas claras e puras,
de nitidezes simples, minerais,certezas retilíneas como agulhas.
Nada de nebuloso, frouxo ou úmido
há de turvar o brilho do cristalde uma razão sem jaça e sem nervuras,
sem óleos malcheirosos e carnais.
O sonho, sorridente e diurnal,
espargirá sobre um túmulo de dúvidasflores estritamente artificiais,
entre diagonais e ângulos agudos.
O sonho quer estrangular o mundo.
(pg 77)
SONETILHO DE VERÃO
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
(pg 81)
UM POUCO DE STRAUSS
Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.
Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de músicaque tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.
Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédioque suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.
Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.
(pg 85)
BONBONNIÈRE
IV
Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.Não há nada nisso de extraordinário.
A natureza odeia o desperdício,
tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr.É exatamente a conta necessária.
até que alguma solução se encontre.
O que aliás não acontece nunca.E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo
para não perder a esperança e o bonde:
A caixa de bombons. A Marcha húngarade Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.
(pg 101)
MEMENTO MORI
I
Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
(pg 109)
NO ALTO
I
Esse rosto que me olha de esguelha
(talvez para não ser reconhecido)não é o mesmo que ontem vi no espelho,
o rosto familiar de um velho amigo
que desde sempre eu via à minha frentee que no entanto agora anda sumido.
Não. Este novo é um rosto diferente,
de quem está ali a contragosto,só por honra da firma, e se ressente
da obrigação de refletir um rosto
que – fora um ou outro aspecto físicoque nada significa – é o seu oposto.
(Um dos dois rostos é um impostor, no mínimo.
Um dos dois vai ouvir: Pára com isso,Porra. É com você mesmo, seu cínico.)
(pg 115)
II
Tendo enterrado finalmente
o último dos meus defuntosfecundos, tendo o chão duro
dos insones pela frente,
caminho transfigurado por entre
os móveis do apartamento,sabendo-me abandonado, salvo
pelas palavras todas, intervalo
entre o vivido e o desejo
que vicejou na terra úmida,pá única de cal que ora despejo
sobre meus últimos defuntos fecundos.
(pg 117)
IV
Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.
Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.
O ter o que dizer é jogo arriscado,
não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,
com sua textura por demais espessa
pra transpassar a tímida peneirada pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: todo silêncio é pouco.
(pg 121)
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