domingo, 4 de setembro de 2016

fragmentos do livro "Albert Camus e o teólogo", de Howard Mumma

Trechos de "Albert Camus e o teólogo" (Albert Camus and the minister), de Howard Mumma, Carrenho Editorial

É justo perguntar porque esperei tnto para publicar esse relato de minhas conversas com Camus - e se, depois de tantos anos, esse relato poderia ser acurado. Quero deixar claro que não mantive conversas regulares com Albert Camus; nossos diálogos foram ocasionais, ao longo de vários anos. Uma coisa era certa: a cada vez que marcava um encontro, o escritor tinha um tema para discussão já definido em seu pensamento.
Durante nossa segunda ou terceira reunião, Camus perguntou se eu concordaria que os nossos encontros se mantivessem confidenciais, e que nenhum registro das datas dos nossos encontros fosse guardado. "Afinal de contas", ele disse, "Você é um sacerdote!" Eu sorri e concordei de imediato.
Sacerdotes geralmente não são conhecidos por quebrarem suas promessas, mas agora, aos 91 anos de idade - e com Camus morto há 40 anos -, estou confiante de que os benefícios de compartilhar a sua história sobrepujam (e muito) a traição da sua confiança. Felizmente, depois de cada conversa com Camus eu fazia copiosas anotações. É a partir dessas notas e de minha memória que reconstruí nossas conversações. Isso não significa que o registro seja literal. Sou culpado de colocar umas poucas palavras na boca de meu conhecido - e de fato também em minha própria - a fim de melhor capturar a essência de nossas sessões.
Por outro lado, não estou tentando minimizar minhas deficiências. Fica claro para mim que, a despeito de quão forte tenha tentado, eu faltei com Camus, e as consequências foram trágicas.
(pag.19)

Seus olhos baixaram mais uma vez e ele olhou para a mesa, movendo a cabeça de um lado para o outro.
- Embora em teoria eu tenha sempre confiado no universo e na humanidade, minha experiência me fez começar, na prática, a perder a fé no seu significado. Alguma coisa está terrivelmente errada. Sou um homem desiludido e exausto. Perdi a fé, perdi a esperança, desde a ascensão de Hitler. É de se admirar que, na minha idade, eu esteja procurando algo em que acreditar? - Ele ergueu os olhos novamente até que eles encontraram os meus. - Perder a vida é uma coisa sem importância. Mas perder o sentido da vida, ver nossa argumentação desaparecer, é insuportável. É impossível viver uma vida sem significado.
... Enquanto eu o observava, percebi que havia nele mais do que curiosidade intelectual. Ele queria mais do que uma compreensão da fé. Ele queria experimentar essa fé, e tê-la agindo em sua vida. (pag.31)

- Estou acompanhando você até agora - respondeu Camus enquanto meneava a cabeça em sinal de afirmação. - Deixe-me perguntar, entretanto: você considera a historia do Jardim do Éden como sendo factual... quer dizer, histórica?
Aquele era um assunto complexo, e poderíamos passar o resto do dia discutindo somente aquilo.
- No que diz respeito à verdade histórica dessa narrativa, há dois métodos de interpretação. Você pode pensar na narrativa como um fato literal: nosso primeiro ancestral era um homem chamado Adão. Adão sucumbiu à tentação oferecida pela esposa. Ele comeu o fruto proibido, cometendo assim o pecado original. Somos todos filhos dele e herdamos sua culpa, portanto estamos todos debaixo da condenação de Deus. Se você vê a história dessa maneira, pensará na queda de Adão como algo que aconteceu há muitos anos atrás. Se a narrativa é um fato histórico, deveríamos odiar Adão por ter colocado toda a humanidade nessa situação. Deveríamos também odiar Deus por nos culpar pelo que o nosso ancestral fez. Para mim, existe um modo melhor de se olhar para essa história: Adão, em hebraico, significa homem. Portanto, o que você tem aqui não é a história do que aconteceu a um homem, mas a dramatização de como as coisas são com todos nós.
Camus ficou empolgado com a ideia.
- Sim, sim, eu tento fazer a mesma coisa com meus próprios escritos. É uma marca de toda a boa literatura. Adão é um espelho da natureza humana.
- Exato. Essa narrativa não é história antiga enterrada em um passado morto. É na realidade uma projeção nossa no ato de sermos nós mesmos. Olhando no espelho de Adão, vemos que o homem é uma mistura de bem e mal.
- Como dizia Pascal, "o homem é a glória e a escória do universo" - declarou o escritor, sorrindo.
(pag.40)

- Se a Bíblia é vista dessa forma, a despeito do fato de ser composta de livros e capítulos independentes, tudo começa a se encaixar - concluí. - Muitas passagens desconcertantes e até mesmo contraditórias começam a fazer sentido, desde que se tenha em mente que a Bíblia é uma coleção de livros compilada ao longo de mil anos ou mais. Não é de se surpreender, dado esse intervalo de tempo, que a coleção careça de uma ordem perfeita, ou que os autores não compartilhem todos o mesmo ponto de vista.
Camus franziu as sobrancelhas e comentou:
- Não pude deixar de notar em minhas leituras da Bíblia que algumas das histórias são contadas repetidas vezes, e há muitas inconsistências...
- A coisa mais notável a respeito da Bíblia não é que haja tantas diferenças e inconsistências, mas que ela tenha sobrevivido à ausência de um consenso sólido e permanente entre os seus autores. Assim, a Bíblia oferece um registro confiável, mas não infalível, do caráter de Deus e das suas relações com os homens. Eu acredito que todos os seus autores foram inspirados pelo Espírito de Deus, de tal modo que suas próprias habilidades e poderes não foram suspensos ou abolidos, e sim aumentados e desenvolvidos em uma cooperação de suas mentes e espíritos com uma força superior. No final de tudo, podemos chamar a Bíblia de palavra de Deus, mas não de palavras de Deus.
Camus concordou com a cabeça, mas não disse nada. Aparentemente ele estava inseguro sobre como prosseguir. Então, continuei:
- Vem à minha mente o livro do bispo John Robinson, Can we trust the New Testament? Confiar é uma palavra boa. Quando confiamos em uma pessoa, somos capazes de reconhecer as suas piadas como piadas, suas metáforas como metáforas, e suas histórias de pescador como simples histórias que são; entretanto, reconhecemos também que em assuntos importantes ela não irá nos desviar do caminho certo. É a mesma coisa com a Bíblia. A despeito das desqualificações que observamos, ela não irá nos desviar fundamentalmente do caminho correto. Ela permanece o guia definitivo para a fé e a vida cristã. Então, pode-se perguntar, a Bíblia é verdadeira? Devemos confiar nela? Ela é fiel à vida real? A palavra hebraica que nós traduzimos como verdade carrega as conotações de "digno de confiança" e "regularidade, constância" muito mais do que a precisão histórica. Em hebraico, a pessoa verdadeira é aquela na qual você pode confiar. A mesma coisa ocorre com a Bíblia.
(pag.52)

- Sabe, eu tenho ganho muito dinheiro porque, de algum modo, sou capaz de articular a desilusão dentro do homem. Tenho escrito coisas que significam muito para muita gente. Você viu como as pessoas me tratam, Howard. Eu mexi com alguma coisa dentro delas, pois identificaram em meus escritos a angústia e o desespero que todas elas sentem. Falei à insignificância e à incerteza, os princípios básicos daquilo que não tenho certeza se ainda acredito. Isso, mais do que tudo, é o que me aflige. Esta é a raiz do meu desespero.
(pag.65)

- Ele respondeu imediatamente. "A única base da ética é o fato da liberdade." Em seguida, Sartre repetiu a frase com mais ênfase. "A única base da ética é o fato da liberdade. Portanto, qualquer coisa que favorece o crescimento da liberdade é moral e qualquer coisa que prejudica o crescimento da liberdade é imoral." Logo descobri: liberdade é a palavra-chave para se compreender Sartre.
(pag.76)

- Interessante notar que Sartre aceitava o dito de Nietzsche, "Deus está morto". Mas aceitava também a declaração de Dostoievski: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido." Em um mundo sem deus, a condição do homem seria de abandono - uma conclusão que Sartre tomou de Heidegger. Por abandono ele queria dizer que a rejeição de Deus elimina também qualquer possibilidade de encontrar-se valores em algum tipo de paraíso inteligível. "O abandono do homem é uma consequência do fato de que tudo é realmente permitido. Portanto, o homem está desamparado porque não é capaz de encontrar nada para se apoiar dentro ou fora de si mesmo. O homem não tem desculpas. Sua existência precede a sua essência. À parte da sua existência, existe o nada. Existe apenas o presente."
(pag.78)

- De forma contrária à crença popular - explicou o escritor -, eu nunca chamei a mim mesmo de existencialista, mas sempre me identifiquei com esse senso de isolamento e desamparo em meio a um universo hostil. E, como Sartre, tenho buscado encontrar a moral diante do desespero e do prospecto de um universo sem Deus. É como eu falei uma vez a um grupo de monges dominicanos: "Compartilho com vocês da mesma repulsa do mal, mas não compartilho da sua esperança em Deus. E continuo a lutar contra esse universo em que crianças sofrem e morrem."
(pag.81)

Mas enquanto eu revivia ali sentado minha visita a Sartre, um abismo ainda maior apareceu entre eles: Sartre achava que tinha achado as respostas; Camus não, e talvez nunca encontrasse. Para Camus o mistério da vida era uma batalha constante, uma luta contínua para encontrar uma verdade eternamente esquiva, mas que sempre o convidava a tentar mais uma vez.
(pag.82)

- Esse entendimento do bem e do mal era um dos ensinos básicos da filosofia grega conhecida como estoicismo. Esa filosofia tinha como centro o conceito de que um logos - ou razão - divino dirige o desenrolar do cosmos e da história. Uma razão e um propósito divinos englobam tudo que existe. O estoicismo acredita na unidade, harmonia e bondade fundamentais do universo. Na visão dos estóicos, tudo é governado pela lei e pela razão divinas. O julgamento de que existe mal no mundo surge da nossa ignorância do todo e da nossa insensibilidade ao fundamento lógico e ao propósito do todo das coisas.
- Do ponto de vista do conhecimento abrangente de Deus - respondi -, todas as coisas são boas e belas, e refletem uma ordem e propósito fundamentais, mesmo quando tudo que está ao alcance da nossa visão é repulsivo e pernicioso. Cabe a cada um, então,, sintonizar sua mente e sua alma com o logos divino e apreciar a harmonia última das coisas. Desse modo, a pessoa cultiva uma perspectiva divina e é libertada da ansiedade e do medo, pois tem confiança no governo da razão. Claro, segue-se de tudo isso a conhecida doutrina estóica da resignação das coisas aos seus papéis determinados. A ideia recebeu expressão eloquente em Epíteto:
"Lembre-se de que você é um ator em uma peça, e é o autor que escolhe o estilo dela: se ele quer que você faça o papel de um homem pobre, você deve desempenhar o seu papel com todas as suas forças.... Pois a sua incumbência é personificar o papel que foi dado a você, e fazê-lo bem; a escolha do elenco pertence a Outro."
- Epíteto nos encoraja a termos sempre à mão um fragmento como este de Cleantes: "Conduz-me, Zeus, e tu, ó Destino. O que quer que tiverdes fixado como minha sorte eu trilho alegremente. Não o fizesse eu, perverso e infeliz, teria de trilhá-lo ainda assim". Os estóicos representam uma longa tradição de pessoas reflexivas compelidas a optar pelo logos, Deus, e pela neutralidade ao invés de enfrentarem o  abandono do mundo por parte de Deus e experimentarem a existência racional - concluí.
(pag.87)

Falei, então, sobre um livro que C. S. Lewis havia escrito alguns anos antes, intitulado O problema do sofrimento. Ele disse: "Se Deus fosse bom, desejaria fazer as suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, poderia fazer o que desejasse..." Em seguida, continuei:
- Acho que é um bom começo rejeitarmos a noção de que onipotente significa capaz de fazer qualquer coisa. Eu sei que a Bíblia nos diz "com Deus, todas as coisas são possíveis", mas essa declaração pressupõe "se as coisas não forem auto-contraditórias". Algumas pessoas podem perguntar se Deus é capaz de fazer uma corda com apenas uma ponta, ou um círculo quadrado, mas essas perguntas não têm sentido. A onipotência de Deus significa a capacidade de fazer tudo que é intrinsecamente possível.  Em outras palavras, pode-se atribuir milagres a Deus, mas não absurdos.
- O fato de Deus não ser capaz de realizar o que é autocontraditório não contradiz de modo nenhum a noção de que ele é todo-poderoso e capaz de fazer imperar a sua vontade. Essa é uma constatação interessante. Ela representa a tradição central da filosofia cristã, conforme formulada por Tomás de Aquino: "Nada que implica contradição está sob a onipotência de Deus."
- Há muito se crê que Deus é limitado pelas leis da lógica. Se é absurdo fazer triângulos em que a soma dos ângulos interiores é maior do que 180 graus, é absurdo do mesmo modo esperar que Ele crie seres sem os perigos inerentes ao seu caráter de criaturas. Mesmo Deus não é capaz de criar uma comunidade interdependente de pessoas sem produzir também uma situação em que o mal se alastre. Em outras palavras, Deus não é capaz de criar uma coisa independente e ainda assim ter completo controle sobre ela ou limitá-la. Por exemplo, não podemos ter água que sacie a nossa sede, mas não afogue  as pessoas. É impossível haver fogo que aqueça as nossas casas e não queime a nossa carne. Também não é possível para Deus criar mentes que sejam livres e ainda assim incapazes de fazer o mal. Isso não significa que tudo que é criado necessita do mal, mas o que afirmamos é a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus faça criaturas privadas das características e possibilidades tanto do bem quanto do mal.
- Até aqui, estou com você - Albert assentiu com a cabeça. - Continue.
- Deixe-me colocá-lo de outro modo. O que eu defendi foi a noção de que é absurdo esperar que mesmo Deus gere criaturas privadas das características de seres criados. Tais seres criados têm a capacidade de realizar o que é bom e amável, mas também são capazes de gerar o que é maligno. Meu ponto de vista é que, já que vivemos em um mundo que é bom e mau, esse mundo não está pronto, mas em processo de constante elaboração. Como esta é uma criação que está sendo feita, deveríamos esperar dela o que de fato encontramos: deficiência e imperfeição. Assim, embora não ousemos negar a realidade da dor e do sofrimento e da angústia, não precisamos atribuí-los diretamente à vontade e ao propósito de Deus. A não ser, é claro, que caiamos vítimas da ideia falaciosa de que Deus é onipotente no sentido mais rudimentar do termo.
(pag.92)

- Posso lembrar que existe uma segunda pergunta que poderíamos fazer - disse Camus. - A questão é: o que vamos fazer a respeito do sofrimento? Como iremos responder? O sofrimento é dado. Não podemos escapar à sua existência. É como lidamos com o sofrimento que define o que somos. Somos livres. Escolhemos ou sucumbir à nossa realidade ou rebelar-nos e lutar pela felicidade.
Fiquei feliz com o que Albert disse. Não me contive e acrescentei meus próprios pensamentos:
- Que a tragédia e o infortúnio nos conduzam a Deus a fim de acertar as nossas próprias vidas, nosso modo de pensar e de viver. Em outras palavras, que o fato de vivermos em um mundo imperfeito nos leve ao arrependimento. Podemos começar mudando a nós mesmos, e fazendo assim podemos esperar mudar o mundo. O arrependimento é uma resposta ativa, uma meia-volta em direção a Deus, uma mudança de coração e de costumes. Precisamos dar as costas aos nossos interesses e preocupações triviais, limitados e egoístas e trabalhar para evocar o reino de Deus. Devemos nos comprometer como homens e mulheres livres a fazer o que percebemos como vontade de Deus. Deus deseja e precisa dos esforços de cooperação dos seres humanos para que sua vontade perfeita seja realizada.
(pag.94)

Albert começou então a relacionar os tipos de homem que, acreditava ele, poderiam ser usados como modelos de vida. São homens que aceitam a vida como absurda e ainda assim a amam em sua totalidade, a despeito de suas restrições. O que fazia deles grandes homens era que viviam a vida apaixonadamente.
- O primeiro desses modelos é Don Juan - declarou o escritor. Ele tem um apetite pelo amor e pela vida. Ele vive a vida em sua totalidade. O seguinte é o ator. O terceiro é o conquistador. Mas o maior de todos eles é Sísifo. Sua tarefa inútil e sem esperança era, na opinião dos deuses, a pior das punições que podiam infligir sobre o homem. Mas por que eles o puniram? Sísifo, depois que morreu, recebeu permissão do deus do mundo inferior para retornar brevemente ao mundo dos vivos. Ele deixou de honrar a sua palavra e de voltar para a terra dos mortos. Sísifo é um grande herói por seu desdém pelos deuses e seu amor à vida.
- Mas - Camus continuou - sua punição, embora inútil, não deixa de ter significado. A glória do homem é gastar toda sua existência e substância a fim de obter precisamente nada. Sísifo, apesar de saber que nunca atingirá o seu objetivo, continua a tentar. Essa perseverança é sua grandeza. Se o homem não tivesse livre arbítrio, a punição de Sísifo não teria sentido. Entretanto, embora tenha conhecimento de que não é capaz de alcançar sua meta, ele continua a empurrar a pedra morro acima. Quando ela cai, Sísifo simplesmente dá as costas à montanha para começar mais uma vez.
(pag.97)

De fato, essa é uma doutrina cristã: a aceitação dos males do mundo e a afirmação cristã de que ninguém deve render-se diante da injustiça e do sofrimento. Ao contrário, Camus requeria uma revolta constante e ativa contra todos os tipos de injustiça e sofrimento. É verdade que ele dizia que esses heróis eram absurdos. Eles sabem que vivem em um mundo absurdo. Sabem que são problemáticos e morrerão. Sabem que o mundo é imperfeito. Sabem que tudo no mundo tem livre arbítrio, e que dessa liberdade em o desespero. Todavia, no meio de tudo isso, Camus dizia: "Sou um otimista". Ele era pessimista quanto ao destino do homem, mas otimista quanto ao homem em si.
(pag.99)

- Para mim isso é tudo que existe: simplesmente continuar vivendo - sentenciou o escritor. - A única esperança que posso oferecer é simplesmente viver. A repetição, inquirindo cada dia com o puro ato de viver. Recomeçar vez após outra até a morte é tudo que existe. Ainda assim, Howard, eu percebo que algo está faltando. Existe mais?
(pag.100)

Fiquei me perguntando novamente se havia cometido um erro em não respeitar o seu pedido. Parecia a decisão certa na ocasião, mas se eu soubesse que seria minha última chance de rebatizá-lo como ele queria, talvez  minha decisão tivesse sido outra. Eu não estava certo do que me incomodava. Eu havia dado a entender que o batismo era um evento que normalmente só ocorria uma vez, e eu com certeza não estava preocupado com a sua alma. Deus havia separado um lugar especial para ele, eu estava certo. Camus era um homem verdadeiramente decente e compassivo, e havia no cerne de todas as suas obras e lutas com a fé e a filosofia uma preocupação genuína com a posição do seu próximo.
(pag.115)

Em seu livro Albert Camus: uma vida, por exemplo, o biógrafo Olivier Todd afirma que Sartre, Simone de Beauvoir e Camus possuíam abordagens diferentes em relação à ideia de Deus:
Sartre, Simone e Camus não têm a mesma atitude diante da ideia de Deus. São todos ateus, os sartrianos com satisfação, Camus quase que com inquietude e perplexidade. Sartre desvencilhou-se de Deus, velho berloque filosófico, da religião e do sagrado há muito tempo. (...) Camus tenta compreender a fé. Para Sartre esta grande superstição não merece atenção. (...) Camus não discute sobre Deus e sobre a graça com Sartre. Nem sobre o sagrado, como poderia fazer com [André] Malraux.
(pag. 122)

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