segunda-feira, 5 de setembro de 2016

comentário sobre o livro "Por que virei à direita", de J.P. Coutinho, Luis Pondé e Rosenfield

Existe o dia e a noite, o preto e o branco, a esquerda e a direita.

Mais ou menos.

Na vida como ela é, existem tantas esquerdas e direitas quanto se pode imaginar, ou melhor, que nem se pode imaginar.

"Por que virei à direita", da Editora 3 Estrelas: esta ótima mas breve coletânea de ensaios abarca perspectivas de direita imaginadas por 3 intelectuais, das tantas possíveis: João Pereira Coutinho, Felipe Pondé e Rosenfield.

Coutinho e Pondé partilham de orientações semelhantes, inspirados no conservadorismo de safra inglesa. Percebe-se que não é a perspectiva mais difundida no Brasil, já que alguns de seus principais teóricos (Burke, Oakeshott) nem têm seus principais textos traduzidos no país.

Coutinho discorre em torno de autores de ciência política. Pondé, por sua vez, parte da filosofia para chegar até a política.  Ambos mantém seus estilos já conhecidos em suas colunas no jornal Folha de São Paulo. Acreditem se quiser, há vida inteligente no lado direito da força.

Sobre o texto de Rosenfield, particularmente achei menos útil, por duas razões. A primeira é que o ensaio faz críticas pontuais ao PT, o que deixa o texto um pouco datado, ao contrário dos dois ensaios anteriores, mais atemporais e ricos em teoria. A segunda razão é que Rosenfield fundamenta sua predileção pela direita por causa dos erros da esquerda.  Acho pouco cimento para uma construção sólida. Quem é de esquerda pode rebater na mesma moeda, ou seja, sou de esquerda por causa dos erros da direita.  Afinal, o exercício de ambos os posicionamentos tem seus defeitos.

Mas um trecho do ensaio de Rosenfield é precioso: mostra que a vida como ela é difere da vida como teoria. É a parte em que Rosenfield tenta criticar o filósofo Heidegger pelo seu apoio ao nazismo:

"Numa visita à França, nos anos 1990, fui convidado por meu orientador de tese, o filósofo Jean-Toussaint Desanti, para um almoço num pequeno restaurante chinês, numa travessa da praça de Sorbonne. Na época, estava no auge a publicação de livros e documentos sobre a relação de Martin Heidegger com o nazismo. A discussão era intensa, e as revelações me deixaram indignado com o filósofo, apesar de eu admirar sua obra. Cheguei ao encontro ansiando por colocar esse assunto na mesa. Desanti ouviu-me calmamente e, com sua costumeira voz pausada, disse-me: "Denis, vou te contar uma história".

Antes, porém, de repetir sua história, conviria caracterizar um pouco o personagem. Desanti nasceu na Córsega, terra de Napoleão, em 1914 e guardou de suas origens naquela terra inóspita uma espécie de dureza. Era um homem de vasta cultura filosófica, não afeito às lutas universitárias pelo poder, das quais, aliás, mantinha distância. Era como se tudo aquilo, na perspectiva do que tinha vivido, fosse pequeno demais e não lhe dissesse respeito. Desanti atravessou boa parte do século XX como comunista. Chegou a assinar um manifesto que declarava ser Stálin o maior matemático de seu tempo. O próprio Desanti, sendo matemático, sabia que tudo aquilo era um embuste. Instado a dar satisfações sobre o manifesto, declarou simplesmente que era o "costume" da época. Outros, é óbvio, não tinham seguido o mesmo "costume". Com o passar dos anos, parecia mais e mais desiludido e cético.

Voltemos à história contada por Desanti, que faleceu em 2002. Durante a Guerra Civil espanhola, dois militantes comunistas franceses foram encarregados de contrabandear armas dos soviéticos aos comunistas espanhóis. Conheciam-se apenas por causa do trabalho partidário e, disciplinados, cumpriam ciosamente sua missão. Seguiram essa rotina de 1936 a 1939, movidos pela convicção na causa e pela obediência ao partido. Terminada a guerra, distanciaram-se um do outro, indo cumprir diferentes tarefas.

Logo depois começou a Segunda Guerra. Um dos militantes recebeu do Partido Comunista francês a missão de matar o chefe da Gestapo da cidade de Bordeaux. Preparou-se minuciosamente e armou a tocaia. Ao mirar o nazista, qual não foi sua surpresa quando reconheceu nele seu antigo camarada da Guerra Civil espanhola.

O que fazer? Deveria mata-lo ou preservá-lo? O que ocorrera? Teria o ex-comunista se convertido ao nazismo? Ou permanecia um comunista e havia se infiltrado na Gestapo, a fim de prestar serviços à Resistência? Como saber, se ele não tinha tempo para dúvidas? Não hesitou, portanto, e matou seu ex-camarada.

Como ter certeza de algo, ainda mais em "tempos sombrios", para usar a expressão de Hannah Arendt? Como distinguir o certo do errado quando o próprio trabalho de reconhecimento se confronta com zonas de sombra e incerteza?

É muito fácil escrever um livro sobre Heidegger e o nazismo décadas depois do fim da Segunda Guerra, confortavelmente instalado em uma universidade com calefação. O juízo moral se torna muito mais nítido, pois o momento da ação, da discriminação real foi deixado para trás. O conforto do ambiente universitário produz uma certeza afastada do mundo dos que agem. É fácil, assim, julgar. Parafraseando Aristóteles, como julgar caso a caso, em cada particularidade, no instante em que os critérios morais devem discriminar algo na temporalidade do momento e em circunstâncias pouco claras, pouco discrimináveis?

Desanti, com sabedoria, recomendava-me cautela, cuidado e reflexão sobre as condições concretas do juízo moral. A mensagem era a de um ex-comunista que tinha se tornado um cético, um descrente de posições peremptórias, tão em voga entre seus contemporâneos franceses. Eu estava sendo ensinado por um ex-comunista a julgar com prudência os vínculos de Heidegger com o nazismo. Virar à direita significa aqui adotar um suave ceticismo, incomum em um ambiente de esquerda."

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