quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

memória e liberdade


"Memória e liberdade - espiritualidade do seguimento de Jesus, o Cristo", de Alessandro Rocha, 2009, Editora Reflexão

Alessandro Rocha é um pastor batista que em seus livros trilha um percurso teológico sensível a estudos pós-modernos das ciências humanas. Dele, já li o ótimo "Teologia sistemática no horizonte pós-moderno", que me surpreendeu pela forma crítica e acessível com que questiona a influência platônica na ortodoxia cristã, "cristianiza" a morte de Deus anunciada por Nietzche, e sugere desenvolvimentos teológicos baseados nas obras de intelectuais como o antropólogo norte-americano Clifford Geertz e o filósofo italiano Gianni Vattimo.

A proposta metodológica do autor no livro "Memória e Liberdade" é tentar resgatar o imaginário social sobre o qual Jesus estabeleceu sua pregação, e, a partir deste contexto, definir o que é a espiritualidade cristã.

"Dentro dessa perspectiva da história onde o imaginário social é reabilitado como princípio metodológico, a memória social ou comunitária é o lugar, por primazia, da investigação e discurso teológicos." (pg.15)

Sobre a memória social, o autor cita MOTTA (Maria M. M. Motta, História e Memória, em História: Pensar e Fazer, Niterói, UFF.1992):

"O processo de construção de memórias implica escolhas entre os fatos do passado, que por sua vez ou outra determinado grupo considera que devam ser lembrados/rememorados. Ao fazer escolhas, o grupo também esquece outros acontecimentos.
É verdade que sem o esquecimento, a memória humana é impossível. Mas quando falamos de grupos sociais, devemos estar cientes de que existem "projetos de esquecimento", coisas e fatos que não devem ser lembrados, sob pena de ser ameaçada a unidade do grupo, questionada sua identidade, fragilizando e/ou colocando a questão do interesse comum" (pg 25)

O ponto de partida e passagem bíblica central do livro, a partir do qual o autor busca resgatar a memória social dos seguidores de Jesus, é Lucas 4:17-21:

"Então, lhe deram o livro do profeta Izaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.  Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir."

Segundo o autor, esta passagem é o núcleo do ministério de Jesus, ao menos na perspectiva do evangelho de Lucas.  Em todo seu livro, Alessandro prioriza passagens do livro de Lucas para apoiar esta tese.  Lucas 4:17-21 recorda Izaías 61 que por sua vez recorda os códigos deuteronômicos (Dt 15) e da aliança (Êx 21-23) , textos estes de reparações às opressões sociais, perdão de dívidas, libertação de escravos, auxílio aos pobres, justiça social e liberdade.

"Essa tradição libertária que nasce no código deuteronômico recebe a adesão de Jesus a partir da articulação do trito-Izaías (Is 61:1-2, 58:6). Esse hino profético-messiânico funciona como eixo de ligação entre as tradições acima citadas e a plataforma programática do ministério de Jesus apontada no evangelho de Lucas." (pg.20)

A referência em Lucas 4 ao "ano aceitável do Senhor" é interpretada como menção ao ano do jubileu judaico.

O autor explora as bem-aventuranças (Lc 6:20-23) e os "ais" de Lucas (Lc 6:24-26) dentro deste contexto de justiça social.  Curioso que o evangelho de Mateus parece preferir um significado mais espiritual das bem-aventuranças. Enquanto Lucas celebra pobres e famintos e lamenta os ricos e os que têm fartura, Mateus fala sobre pobres "de espírito" e daqueles que têm fome e sede "de justiça". Os "ais" do sermão da montanha aparecem apenas no evangelho de Lucas.


Evangelho de Lucas: bem-aventurados x ai dos...
Evangelho de Mateus: bem-aventurados...
os pobres x os ricos
os pobres de espírito

os que têm fome x os que têm fartura

os que tem fome e sede de justiça

os que choram x os que riem

os que choram

os que são odiados x os que são bem-falados

os perseguidos


os humildes


os misericordiosos


os puros de coração
os pacificadores

Alessandro também contextualiza o lugar dos acontecimentos. De acordo com Alessandro, era complicada a situação social da Galileia, na época da leitura de Izaías na sinagoga:

"Do ponto de vista externo, a Galileia era considerada, de acordo com o judaísmo da Judeia, indigna dos privilégios da nação de Israel. Além de ser área rural, era conhecida como Galileia dos gentios, em função de, ainda na ocupação de Canaã, ter sido habitada por outros povos (nações), que ao longo da história chegaram mesmo a ser minoria.
Do ponto de vista interno, a condição da Galileia nos tempos de Jesus também era delicada. Segundo historiadores, ela passava por um processo de concentração de riqueza cada vez mais agudo e ainda por um período de fome. Isso acabou promovendo uma série de desdobramentos: concentração de propriedades nas mãos de poucos, crescimento dos endividados e marginalizados. A escolha de Jesus por iniciar seu ministério revela-nos os primeiros traços de seu posicionamento em favor dos desprezados, externa e internamente." (pg.36)

A espiritualidade cristã é definida tendo essa memória social de justiça e liberdade. Ao dizer "O espírito do Senhor está sobre mim", Jesus demonstra sua condição espiritual:

"Na continuação do texto de Isaías Ele apresenta os elementos formadores dessa sua forma de viver: anunciar o Reino de Deus àqueles que mais carecem, buscando alcançar a integralidade da vida. Espiritualidade é, portanto, uma forma de viver cheio do Espírito que nos conduz à vivência integral do Reino de Deus." (pg.22)

A espiritualidade busca justiça social.

A partir da metade do livro, o autor diminui bastante o foco em conceitos acadêmicos que até então orientavam e eram adaptados no texto, e adota um tom mais pastoral: os capítulos parecem se tornar mensagens dominicais com bons insights de assuntos diversos tais como maturidade espiritual, oração e outros. Nessa altura, o livro perde um pouco o fio temático, mas mantém a robustez de conteúdo.