A expressão acima é uma citação do maior livro de história do pensamento conservador já escrito: The Conservative Mind, de Russel Kirk. Faço uso dela aqui para indicar sinteticamente minha opção pelo pensamento conservador britânico (também marcado por Tocqueville, francês de têmpera britânica).
Termos como "mente", "espírito", "ideia", "sensibilidade" e "atitude" são comuns para definir o pensamento conservador. Eles respondem à dificuldade de resumir uma tradição que nasce como reação à Revolução Francesa no século XVIII, recolhendo questões anteriores a ela, e que a partir daí se transformará numa verdadeira escola de trincheira.
Na abertura de seu livro, Kirk faz a melhor síntese do que seria uma mente ou um espírito conservador (pessoalmente prefiro a expressão de Oakeshott, "sensibilidade conservadora"):
> Desconfiar de grandes sistemas de pensamento e preferir formulações baseadas no que a empiria humana nos oferece ao longo da história.
> Problemas políticos são, em sua base, morais ou religiosos.
> Crer numa ordem transcendente ou pelo menos não plenamente racionalista que cause impacto na história e nas sociedades.
> Afeto pela variedade infinita da humanidade e por sua misteriosa manifestação nas pessoas e nas sociedades.
> Recusa do "logicalismo" (racionalismo) e da uniformidade como visão do ser humano.
> Opção por uma sociedade com hierarquias e classes que representam as diferenças comuns entre os seres humanos.
> A liberdade só se concretiza na existência da propriedade privada como modo de restrição ao poder do governo e da sociedade sobre os indivíduos.
> Recusa, como dizia Burke, dos "sofistas, calculadores e economistas", que são representantes do racionalismo iluminista francês e de seus herdeiros da esquerda.
> As necessárias mudanças no mundo não podem ser fruto de uma teoria de gabinete nem ser pautadas por alguma ideia de inovação do mundo e do homem. Tampouco a revolução é melhor do que a reforma gradual e pontual, visando a problemas específicos e não advindos de alguma teoria wholesale (do tipo que descreve a vida no "atacado") sobre como o mundo deveria fazer para ser perfeito.
> Recusa do "melhorismo" ou da ideia de que o homem caminha progressivamente para a perfeição.
> Defesa do hábito contra a razão como critério puro da vida (o racionalismo, novamente).
> Recusa do chamado levelling político e econômico, ou seja, de uma igualdade abrangente das sociedades e dos indivíduos.
Enfim, hábito, afeto, empiria e não fé na capacidade de a razão moldar o mundo e os homens. Suspeita de que, ao final, uma filosofia política fala, acima de tudo, do caráter de quem a escolhe.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
(depósito de textos, trechos, excertos, pedaços, restos, sobras, migalhas e fragmentos)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Michael Oakeshott: a política da fé versus a política do ceticismo, por Felipe Pondé
Para encerrar esta pequena lista de alguns patriarcas formadores de minha opção pelo pensamento conservador em política, menciono Michael Oakeshott e sua intuição certeira acerca da neurose de perfeição que a sociedade egressa do racionalismo francês apresenta.
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", de Felipe Pondé
Filosofar é conversar com mortos. Sempre penso nos autores com os quais aprendi a ver o mundo como sendo meus patriarcas, no sentido bíblico. Só depois de meu contato com o mito da queda em Pascal, voltei, já com intenções filosóficas, à Bíblia, que considero o maior clássico da literatura ocidental. Quando estou em jantares com pessoas "inteligentes", costumo escutar absurdos como: "A Bíblia é um livro opressivo e ultrapassado". Para mim, esse é um teste definitivo de repertório: quem pensa assim é basicamente um ignorante. A clássica desqualificação que a esquerda faz da herança bíblica, confundindo-a com as mazelas da história do cristianismo, é um indicador de sua inconsistência intelectual.
Entendo a Bíblia como um livro que descreve a condição humana e suas agonias. De cara, o mito da queda aponta o lugar dessa agonia: a inveja de Deus e o orgulho como negação neurótica dessa inveja. Em minha visão da natureza humana, isso é uma fonte de sentido. Há uma profunda verdade acerca da "essência" da natureza humana na inveja de Deus que Adão e Eva sentem. Vejo esse mito um pouco como Freud leu o Édipo grego: uma narrativa que descreve uma condição estrutural, um atavismo ontológico. E de onde vem essa inveja?
Posso dar duas razões. Primeiro, porque Adão é chamado por Deus de chomer (guardião) da Criação, que é tudo o que existe, inclusive o próprio Adão e sua alma. Logo, tudo é emprestado ao homem, nada é de sua propriedade - Adão é um guardião e não o dono. Em segundo lugar, no Êxodo, quando Moisés, na famosa passagem da sarça ardente, pergunta a Deus qual é o nome dEle (na versão cristã), Deus responde: "Eu sou aquele que é". Isso remete ao fato de que apenas Deus tem ser, enquanto o resto da Criação tem ser apenas por empréstimo, de graça.
Ambas as passagens marcam a condição insuficiente de todos os seres, menos de Deus (essa é a diferença ontológica entre Deus e a Criação). Tal condição fundamenta a dependência de Deus, que Adão recusa infantilmente, e o orgulho, que é uma vã tentativa de negar a mesma condição.
Por isso, Agostinho diz que o orgulho é a raiz de todo pecado. Trata-se de uma mentira essencial sobre nós mesmos, algo que "herdamos" como estrutura psicológica. A inveja de Deus nasce daí: Ele é, eu não. Para Agostinho, os homens viverão tentando negar isso, o que consome quantidades enormes de "energia psíquica", diria eu, em sentido psicanalítico. O orgulho é a mentira essencial que estrutura nosso caráter, ou seja, a tentativa de negar o vazio ontológico que nos constitui.
O parentesco entre o homem e o Nada (de onde ele foi tirado) implica uma luta contínua do homem para negar o Nada ou para assumi-lo. Daí que a atitude moral esperada é a humildade diante dessa insuficiência ontológica. Em linguagem "comum", isso significa reconhecer nossas fraquezas constitutivas.
Uma antropologia agostiniana sempre deixará o filósofo atento à fenomenologia do comportamento pautado pelo orgulho e pela inveja. No fundo, trata-se de uma hermenêutica moral: a moral tenta esconder a consciência da insuficiência ontológica porque ela gera todo tipo de fracasso nos projetos humanos.
Outra passagem significativa da Bíblia é a "cena" em que Caim mata Abel porque este era o preferido de Deus. Essa é outra chave de análise do comportamento humano: detestamos quem é melhor do que nós. De novo, a inveja, agora dos homens em relação aos homens, que são desiguais, sendo uns melhores do que outros. A afirmação de que os seres humanos são iguais é uma farsa, por isso serei redundante para fazer disso uma máxima: alguns poucos são melhores e carregam o mundo nas costas, enquanto os outros apenas se aproveitam, como diz Ayn Rand, que nada tinha de cristã e era ateia convicta.
Por último, o Eclesiastes e seu mantra "tudo é verdade". Sob o sol,tudo é vaidade porque tudo é vão. A vaidade, aqui identificada como vento, nuvem, pó e efemeridade essencial, dialoga com a vaidade de Adão e Eva e com a inveja que o homem tem do Ser de Deus, tal como exposta no Êxodo. Somos vaidosos (orgulhosos) porque no fundo somos apenas pó (insuficiência ontológica). O horror ao pó que nos faz estremecer (em sofrimentos, medos, carências e ódio aos melhores) também nos faz mentir sobre nós mesmos e o próprio horror.
Esse pessimismo ontológico e antropológico teria importante papel em minha recusa das utopias políticas modernas que alimentam o ideário das esquerdas, todas elas baseadas na negação da miséria humana essencial. Em relação à condição humana, a descrição bíblica parece muito mais verdadeira do que os delírios da política marxista do homem novo. Sempre que apostamos no pecado como grade de análise moral, temos mais chance de fazer "ciência" da moral, porque nosso temperamento é orgulhoso e invejoso. Eis por que vejo a Bíblia como um livro empírico.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Entendo a Bíblia como um livro que descreve a condição humana e suas agonias. De cara, o mito da queda aponta o lugar dessa agonia: a inveja de Deus e o orgulho como negação neurótica dessa inveja. Em minha visão da natureza humana, isso é uma fonte de sentido. Há uma profunda verdade acerca da "essência" da natureza humana na inveja de Deus que Adão e Eva sentem. Vejo esse mito um pouco como Freud leu o Édipo grego: uma narrativa que descreve uma condição estrutural, um atavismo ontológico. E de onde vem essa inveja?
Posso dar duas razões. Primeiro, porque Adão é chamado por Deus de chomer (guardião) da Criação, que é tudo o que existe, inclusive o próprio Adão e sua alma. Logo, tudo é emprestado ao homem, nada é de sua propriedade - Adão é um guardião e não o dono. Em segundo lugar, no Êxodo, quando Moisés, na famosa passagem da sarça ardente, pergunta a Deus qual é o nome dEle (na versão cristã), Deus responde: "Eu sou aquele que é". Isso remete ao fato de que apenas Deus tem ser, enquanto o resto da Criação tem ser apenas por empréstimo, de graça.
Ambas as passagens marcam a condição insuficiente de todos os seres, menos de Deus (essa é a diferença ontológica entre Deus e a Criação). Tal condição fundamenta a dependência de Deus, que Adão recusa infantilmente, e o orgulho, que é uma vã tentativa de negar a mesma condição.
Por isso, Agostinho diz que o orgulho é a raiz de todo pecado. Trata-se de uma mentira essencial sobre nós mesmos, algo que "herdamos" como estrutura psicológica. A inveja de Deus nasce daí: Ele é, eu não. Para Agostinho, os homens viverão tentando negar isso, o que consome quantidades enormes de "energia psíquica", diria eu, em sentido psicanalítico. O orgulho é a mentira essencial que estrutura nosso caráter, ou seja, a tentativa de negar o vazio ontológico que nos constitui.
O parentesco entre o homem e o Nada (de onde ele foi tirado) implica uma luta contínua do homem para negar o Nada ou para assumi-lo. Daí que a atitude moral esperada é a humildade diante dessa insuficiência ontológica. Em linguagem "comum", isso significa reconhecer nossas fraquezas constitutivas.
Uma antropologia agostiniana sempre deixará o filósofo atento à fenomenologia do comportamento pautado pelo orgulho e pela inveja. No fundo, trata-se de uma hermenêutica moral: a moral tenta esconder a consciência da insuficiência ontológica porque ela gera todo tipo de fracasso nos projetos humanos.
Outra passagem significativa da Bíblia é a "cena" em que Caim mata Abel porque este era o preferido de Deus. Essa é outra chave de análise do comportamento humano: detestamos quem é melhor do que nós. De novo, a inveja, agora dos homens em relação aos homens, que são desiguais, sendo uns melhores do que outros. A afirmação de que os seres humanos são iguais é uma farsa, por isso serei redundante para fazer disso uma máxima: alguns poucos são melhores e carregam o mundo nas costas, enquanto os outros apenas se aproveitam, como diz Ayn Rand, que nada tinha de cristã e era ateia convicta.
Por último, o Eclesiastes e seu mantra "tudo é verdade". Sob o sol,tudo é vaidade porque tudo é vão. A vaidade, aqui identificada como vento, nuvem, pó e efemeridade essencial, dialoga com a vaidade de Adão e Eva e com a inveja que o homem tem do Ser de Deus, tal como exposta no Êxodo. Somos vaidosos (orgulhosos) porque no fundo somos apenas pó (insuficiência ontológica). O horror ao pó que nos faz estremecer (em sofrimentos, medos, carências e ódio aos melhores) também nos faz mentir sobre nós mesmos e o próprio horror.
Esse pessimismo ontológico e antropológico teria importante papel em minha recusa das utopias políticas modernas que alimentam o ideário das esquerdas, todas elas baseadas na negação da miséria humana essencial. Em relação à condição humana, a descrição bíblica parece muito mais verdadeira do que os delírios da política marxista do homem novo. Sempre que apostamos no pecado como grade de análise moral, temos mais chance de fazer "ciência" da moral, porque nosso temperamento é orgulhoso e invejoso. Eis por que vejo a Bíblia como um livro empírico.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
sábado, 25 de abril de 2015
todo caminho da gente é resvaloso
Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta !...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...
Rosa, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta !...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...
Rosa, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
memória e liberdade
"Memória e liberdade - espiritualidade do seguimento de Jesus, o Cristo", de Alessandro Rocha, 2009, Editora Reflexão
Alessandro Rocha é um pastor batista que em seus livros trilha um percurso teológico sensível a estudos pós-modernos das ciências humanas. Dele, já li o ótimo "Teologia sistemática no horizonte pós-moderno", que me surpreendeu pela forma crítica e acessível com que questiona a influência platônica na ortodoxia cristã, "cristianiza" a morte de Deus anunciada por Nietzche, e sugere desenvolvimentos teológicos baseados nas obras de intelectuais como o antropólogo norte-americano Clifford Geertz e o filósofo italiano Gianni Vattimo.
A proposta metodológica do autor no livro "Memória e Liberdade" é tentar resgatar o imaginário social sobre o qual Jesus estabeleceu sua pregação, e, a partir deste contexto, definir o que é a espiritualidade cristã.
"Dentro dessa perspectiva da história onde o imaginário social é reabilitado como princípio metodológico, a memória social ou comunitária é o lugar, por primazia, da investigação e discurso teológicos." (pg.15)
Sobre a memória social, o autor cita MOTTA (Maria M. M. Motta, História e Memória, em História: Pensar e Fazer, Niterói, UFF.1992):
"O processo de construção de memórias implica escolhas entre os fatos do passado, que por sua vez ou outra determinado grupo considera que devam ser lembrados/rememorados. Ao fazer escolhas, o grupo também esquece outros acontecimentos.
É verdade que sem o esquecimento, a memória humana é impossível. Mas quando falamos de grupos sociais, devemos estar cientes de que existem "projetos de esquecimento", coisas e fatos que não devem ser lembrados, sob pena de ser ameaçada a unidade do grupo, questionada sua identidade, fragilizando e/ou colocando a questão do interesse comum" (pg 25)
O ponto de partida e passagem bíblica central do livro, a partir do qual o autor busca resgatar a memória social dos seguidores de Jesus, é Lucas 4:17-21:
"Então, lhe deram o livro do profeta Izaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir."
Segundo o autor, esta passagem é o núcleo do ministério de Jesus, ao menos na perspectiva do evangelho de Lucas. Em todo seu livro, Alessandro prioriza passagens do livro de Lucas para apoiar esta tese. Lucas 4:17-21 recorda Izaías 61 que por sua vez recorda os códigos deuteronômicos (Dt 15) e da aliança (Êx 21-23) , textos estes de reparações às opressões sociais, perdão de dívidas, libertação de escravos, auxílio aos pobres, justiça social e liberdade.
"Essa tradição libertária que nasce no código deuteronômico recebe a adesão de Jesus a partir da articulação do trito-Izaías (Is 61:1-2, 58:6). Esse hino profético-messiânico funciona como eixo de ligação entre as tradições acima citadas e a plataforma programática do ministério de Jesus apontada no evangelho de Lucas." (pg.20)
A referência em Lucas 4 ao "ano aceitável do Senhor" é interpretada como menção ao ano do jubileu judaico.
O autor explora as bem-aventuranças (Lc 6:20-23) e os "ais" de Lucas (Lc 6:24-26) dentro deste contexto de justiça social. Curioso que o evangelho de Mateus parece preferir um significado mais espiritual das bem-aventuranças. Enquanto Lucas celebra pobres e famintos e lamenta os ricos e os que têm fartura, Mateus fala sobre pobres "de espírito" e daqueles que têm fome e sede "de justiça". Os "ais" do sermão da montanha aparecem apenas no evangelho de Lucas.
Evangelho de Lucas:
bem-aventurados x ai dos...
|
Evangelho de Mateus:
bem-aventurados...
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os pobres x os
ricos
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os pobres de espírito
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os que têm fome x os que têm fartura
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os que tem fome e sede de justiça
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os que choram x os que riem
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os que choram
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os que são
odiados x os que são bem-falados
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os perseguidos
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os humildes
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os misericordiosos
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os puros de coração
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os pacificadores
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Alessandro também contextualiza o lugar dos acontecimentos. De acordo com Alessandro, era complicada a situação social da Galileia, na época da leitura de Izaías na sinagoga:
"Do ponto de vista externo, a Galileia era considerada, de acordo com o judaísmo da Judeia, indigna dos privilégios da nação de Israel. Além de ser área rural, era conhecida como Galileia dos gentios, em função de, ainda na ocupação de Canaã, ter sido habitada por outros povos (nações), que ao longo da história chegaram mesmo a ser minoria.
Do ponto de vista interno, a condição da Galileia nos tempos de Jesus também era delicada. Segundo historiadores, ela passava por um processo de concentração de riqueza cada vez mais agudo e ainda por um período de fome. Isso acabou promovendo uma série de desdobramentos: concentração de propriedades nas mãos de poucos, crescimento dos endividados e marginalizados. A escolha de Jesus por iniciar seu ministério revela-nos os primeiros traços de seu posicionamento em favor dos desprezados, externa e internamente." (pg.36)
A espiritualidade cristã é definida tendo essa memória social de justiça e liberdade. Ao dizer "O espírito do Senhor está sobre mim", Jesus demonstra sua condição espiritual:
"Na continuação do texto de Isaías Ele apresenta os elementos formadores dessa sua forma de viver: anunciar o Reino de Deus àqueles que mais carecem, buscando alcançar a integralidade da vida. Espiritualidade é, portanto, uma forma de viver cheio do Espírito que nos conduz à vivência integral do Reino de Deus." (pg.22)
A espiritualidade busca justiça social.
A partir da metade do livro, o autor diminui bastante o foco em conceitos acadêmicos que até então orientavam e eram adaptados no texto, e adota um tom mais pastoral: os capítulos parecem se tornar mensagens dominicais com bons insights de assuntos diversos tais como maturidade espiritual, oração e outros. Nessa altura, o livro perde um pouco o fio temático, mas mantém a robustez de conteúdo.
sábado, 31 de janeiro de 2015
fragmentos de "Em busca da sabedoria", de Nathan Foster
a leitura nos reserva surpresas. a gente nunca sabe exatamente o que vai encontrar em um livro. Com "Em busca da sabedoria" (Wisdom Chaser, título original em inglês) foi assim. Ninguém me indicou. Comprei porque estava com preço promocional e gostei do resumo: as caminhadas nas montanhas do Colorado de Nathan Foster com seu pai Richard J. Foster, autor do clássico cristão "Celebrando a disciplina", aproximam filho e pai e transformam suas vidas.
fiquei encantado com este livro. simples e profundo, autêntico, verdadeiro, honesto, próximo ao coração.
Reproduzo abaixo trechos selecionados, mesmo que fora de contexto:
Encontre
seu ritmo.
Vá
devagar.Não pare. (p32)
Relaxe.
Diminua a
velocidade.Viva cada momento. (p34)
Assim como qualquer outro vício, estar ocupado funciona muito bem. Dá-nos um ponto de vantagem para evitar o vazio, a solidão, as memórias desagradáveis, o sofrimento, a intimidade – e, consequentemente, a clareza que o silêncio e uma vida sem pressa pode trazer. (p40)
Eu não precisava ser obcecado por conquistas. (p52)
As conquistas não importam.
Eu poderia simplesmente ser eu.
Eu era um nada.
Um nada muito amado.
Isso era libertador. (p59)
Anos atrás, quando as pessoas elogiavam o meu pai, ele olhava para baixo e murmurava algo sobre quanto não era digno de louvores. Um bom amigo que ele tem em Dallas chamava isso de “sussurro da humildade”. Papai parou de fazer isso. Se você o elogiar hoje, ele responderá com uma frase padrão. Olhando-o nos olhos, com calma confiança, ele dirá: “Fico feliz porque minha pequena contribuição foi útil para você” (p72)
- Ok, já que Jesus dedicou tanta atenção aos pobres e desvalidos, por que a igreja não é o epicentro mundial da justiça econômica, social e racial? Já encontrei mais graça e amor em pessoas acabadas no bar do que naqueles que ocupam os bancos das igrejas. E então baseamos o sucesso institucional, declarando, assim, a bênção de Deus, pelo número de novos convertidos e pela frequência nos domingos de manhã. É como se fôssemos uma espécie de conquistadores baratos, que não valorizam as pessoas e fazem contas ao pé da cama. O discipulado é um segundo plano que ninguém está preparado para encarar. O exemplo de Cristo, de investir tempo em poucas pessoas por alguns anos, não tem espaço na mescla de projetos para construir novos prédios, atrair novos membros e equilibrar o orçamento. E, em vez de permitir que os nossos pastores sejam seres humanos reais, com problemas reais, preferimos forjar celebridades religiosas atoladas de trabalho. (p80)
- As pessoas hoje precisam desesperadamente de espaço, tranquilidade e atenção. E a maioria das igrejas é especialista em ocupação, pressa e barulho. Mantemos as pessoas distraídas o tempo inteiro. Pessoas sinceras que buscam uma vida íntima e profunda com Deus acabarão sendo deixadas em algum cargo da igreja! Se, em vez disso, ensinássemos as pessoas como criar espaço na vida e como ouvir com atenção, inclinaríamos o coração delas a Deus. Da forma que as coisas estão, fazemos toda e qualquer coisa, menos isso. (p81)
- A pessoa disciplinada faz o que precisa ser feito na hora em que precisa ser feito. (p85)
Nós nos tornamos aquilo que os outros esperam de nós. O meu pai esperava que eu melhorasse e até presumia que eu tinha algo útil a dizer. É incrível como caímos e levantamos segundo as pressuposições dos outros. (p118)
A trilha da Divisa Continental abrange o cume das montanhas Rochosas desde o Canadá até o México. O plano de papai, durante seu período sabático, era mochilar pelos 1.250 quilômetros da trilha que corta o Colorado. (p119)
Terminei aquela semana com a profunda sensação de que Deus não me chama para uma vida de pressa. Sou eu quem a escolhe. (p134)
“Construir e cultivar relacionamentos é a coisa mais importante que você pode fazer na terra”. Gostaria de conseguir lembrar onde ouvi essa frase pela primeira vez. Ela habita a minha mente há anos. (p138)
Há pouco tempo, deparei com uma fotografia tirada por Kevin Carter. É a assustadora imagem de uma criança pequena e faminta engatinhando no deserto do Sudão. À distância, uma ave de rapina espera pacientemente a menina morrer. Pouco depois de ganhar o Prêmio Pulitzer pela fotografia, Kevin se matou. A pobreza extrema resume um terço da história do nosso mundo. (p143)
Papai se interessava por minha vida e, por mais que eu receasse admitir, sua preocupação significava muito. Eu começava a perceber de que formas sua presença havia ajudado a moldar a pessoa que me tornara. Durante dez anos, ele me encorajou. Ouviu e tentou envolver-se. Raramente dava conselhos, mas sempre abria um sorriso. Senti-me aceito e livre para ser quem eu era, sem sofrer julgamentos. Papai me ofereceu aquilo que Henri Nouwen chamou de “hospitalidade”, e percebi que esse é o maior presente que um pai pode dar ao filho. (p160)
No fim das contas, o meu pai não é aquilo que ele escreve, nem sua presença carismática, mas sua capacidade de amar os outros. (p161)
Um dia, quando papai já houver partido, gostaria de escalar no Colorado com os meus filhos e netos. Carregando seu bastão pesado, contarei histórias exageradas de subir aquelas montanhas com um homem velho e lento chamado Caçador da Sabedoria. Com muita ternura, falarei de quanto meu pai amava aquelas montanhas. Direi quanto rimos e conversamos, e quanto ele me amava. (p161)
Ao final do livro, um belo, humilde e sábio posfácio do pai, Richard J. Foster:
Aprendi
quanto sei pouco sobre os mistérios da equação humana. E como é difícil
desvendá-los. Lutando juntos para subir encostas, atravessando um rio bravo
amarrados um ao outro, passando a noite em sacos de dormir no silêncio perfeito
sob as estrelas – para nós, essas experiências proporcionaram a chave que
vagarosamente começou a destrancar as câmaras ocultas do meu coração.
Aprendi
que relacionamentos humanos são delicados e necessitam de cuidados constantes.
Aprendi que ouvir com o coração é um dom da graça, algo para ser preservado
como um tesouro. Aprendi que os elos da amizade têm mais valor do que quase
tudo em que consigo pensar.
Mesmo
assim, não é possível responder por completo às perguntas sobre o que aprendi
ou senti. Algo fica preso na garganta toda vez que tento articular uma
resposta. Creio que algumas realidades são mais profundas do que as palavras.
(p163 – Richard Foster)
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