sexta-feira, 15 de novembro de 2013

para descrever as nuvens



Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.

É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.

Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.

Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.

Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.

Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.

Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.

Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.

Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

(Nuvens, de Wislawa Szymborska)

o meu viver escuta

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


(Poema, de Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Imaginando Sísifo feliz - artigo de João Pereira Coutinho

Um de meus colunistas preferidos é João Pereira Coutinho, do jornal Folha de São Paulo. Gosto de suas provocações irônicas e elegantes, embora nem sempre concorde com ele, que em geral segue uma linha conservadora.

Na coluna desta semana, ele revisa o mito de Sísifo, refletindo sobre o significado da vida.  É claro que, para mim, sendo pessoa de fé, suas respostas não me servem.  De qualquer forma, é curiosa a argumentação que ele pega emprestado de Camus e Taylor.  Segue abaixo seu texto, publicado na Folha de 12/11/13.
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/138515-imaginando-sisifo-feliz.shtml
Imaginando Sísifo feliz

Quem, exceto um ator em palco, consegue viver a vida em permanente intensidade?

Passaram cem anos sobre o nascimento de Albert Camus (1913-1960). Festejos pálidos. Injusto. Quando tivemos o centenário de Sartre em 2005, um filósofo e escritor inferior a Camus, as trombetas soaram com outro vigor.
Camus merecia mais atenção. E, na ausência de festejos públicos, optei pelos privados. Um pouco de nostalgia: já não lia Camus desde a adolescência. Encontrei surpresas gratas. Os romances continuam soberbos, ainda melhores do que na minha memória --e hoje, a caminho dos 40, é "A Queda" (1956), e não tanto "O Estrangeiro" (1942), que verdadeiramente me joga no tapete.
Foram precisas algumas experiências de vida para compreender, tal como afirma o sinistro narrador de "A Queda", que a busca de um método --um sistema, uma ideologia, uma cartilha-- é sempre o expediente dos homens sem caráter.