(depósito de textos, trechos, excertos, pedaços, restos, sobras, migalhas e fragmentos)
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
para descrever as nuvens
Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.
É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.
Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.
Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.
Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.
Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.
Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.
(Nuvens, de Wislawa Szymborska)
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