A expressão acima é uma citação do maior livro de história do pensamento conservador já escrito: The Conservative Mind, de Russel Kirk. Faço uso dela aqui para indicar sinteticamente minha opção pelo pensamento conservador britânico (também marcado por Tocqueville, francês de têmpera britânica).
Termos como "mente", "espírito", "ideia", "sensibilidade" e "atitude" são comuns para definir o pensamento conservador. Eles respondem à dificuldade de resumir uma tradição que nasce como reação à Revolução Francesa no século XVIII, recolhendo questões anteriores a ela, e que a partir daí se transformará numa verdadeira escola de trincheira.
Na abertura de seu livro, Kirk faz a melhor síntese do que seria uma mente ou um espírito conservador (pessoalmente prefiro a expressão de Oakeshott, "sensibilidade conservadora"):
> Desconfiar de grandes sistemas de pensamento e preferir formulações baseadas no que a empiria humana nos oferece ao longo da história.
> Problemas políticos são, em sua base, morais ou religiosos.
> Crer numa ordem transcendente ou pelo menos não plenamente racionalista que cause impacto na história e nas sociedades.
> Afeto pela variedade infinita da humanidade e por sua misteriosa manifestação nas pessoas e nas sociedades.
> Recusa do "logicalismo" (racionalismo) e da uniformidade como visão do ser humano.
> Opção por uma sociedade com hierarquias e classes que representam as diferenças comuns entre os seres humanos.
> A liberdade só se concretiza na existência da propriedade privada como modo de restrição ao poder do governo e da sociedade sobre os indivíduos.
> Recusa, como dizia Burke, dos "sofistas, calculadores e economistas", que são representantes do racionalismo iluminista francês e de seus herdeiros da esquerda.
> As necessárias mudanças no mundo não podem ser fruto de uma teoria de gabinete nem ser pautadas por alguma ideia de inovação do mundo e do homem. Tampouco a revolução é melhor do que a reforma gradual e pontual, visando a problemas específicos e não advindos de alguma teoria wholesale (do tipo que descreve a vida no "atacado") sobre como o mundo deveria fazer para ser perfeito.
> Recusa do "melhorismo" ou da ideia de que o homem caminha progressivamente para a perfeição.
> Defesa do hábito contra a razão como critério puro da vida (o racionalismo, novamente).
> Recusa do chamado levelling político e econômico, ou seja, de uma igualdade abrangente das sociedades e dos indivíduos.
Enfim, hábito, afeto, empiria e não fé na capacidade de a razão moldar o mundo e os homens. Suspeita de que, ao final, uma filosofia política fala, acima de tudo, do caráter de quem a escolhe.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
(depósito de textos, trechos, excertos, pedaços, restos, sobras, migalhas e fragmentos)
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Michael Oakeshott: a política da fé versus a política do ceticismo, por Felipe Pondé
Para encerrar esta pequena lista de alguns patriarcas formadores de minha opção pelo pensamento conservador em política, menciono Michael Oakeshott e sua intuição certeira acerca da neurose de perfeição que a sociedade egressa do racionalismo francês apresenta.
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Contra ela, Oakeshott opta pela defesa do hábito do afeto e o comportamento como uma rede de atos e vivências que constroem as condições empíricas do comportamento humano, na linhagem da sociologia dos afetos e virtudes de que fala Himmelfarb. Além disso, cunha as expressões "política da fé versus política do ceticismo" para descrever a oposição do racionalismo (fé na razão) em política e a atitude conservadora, que coloca limites às crenças de redenção dos governantes. Claro que, como todo grande filósofo, Oakeshott reconhece a importância de o indivíduo buscar aperfeiçoamento individual em sua vida: ele discorda é de o governo se fazer agente dessa busca de perfeição.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", de Felipe Pondé
Filosofar é conversar com mortos. Sempre penso nos autores com os quais aprendi a ver o mundo como sendo meus patriarcas, no sentido bíblico. Só depois de meu contato com o mito da queda em Pascal, voltei, já com intenções filosóficas, à Bíblia, que considero o maior clássico da literatura ocidental. Quando estou em jantares com pessoas "inteligentes", costumo escutar absurdos como: "A Bíblia é um livro opressivo e ultrapassado". Para mim, esse é um teste definitivo de repertório: quem pensa assim é basicamente um ignorante. A clássica desqualificação que a esquerda faz da herança bíblica, confundindo-a com as mazelas da história do cristianismo, é um indicador de sua inconsistência intelectual.
Entendo a Bíblia como um livro que descreve a condição humana e suas agonias. De cara, o mito da queda aponta o lugar dessa agonia: a inveja de Deus e o orgulho como negação neurótica dessa inveja. Em minha visão da natureza humana, isso é uma fonte de sentido. Há uma profunda verdade acerca da "essência" da natureza humana na inveja de Deus que Adão e Eva sentem. Vejo esse mito um pouco como Freud leu o Édipo grego: uma narrativa que descreve uma condição estrutural, um atavismo ontológico. E de onde vem essa inveja?
Posso dar duas razões. Primeiro, porque Adão é chamado por Deus de chomer (guardião) da Criação, que é tudo o que existe, inclusive o próprio Adão e sua alma. Logo, tudo é emprestado ao homem, nada é de sua propriedade - Adão é um guardião e não o dono. Em segundo lugar, no Êxodo, quando Moisés, na famosa passagem da sarça ardente, pergunta a Deus qual é o nome dEle (na versão cristã), Deus responde: "Eu sou aquele que é". Isso remete ao fato de que apenas Deus tem ser, enquanto o resto da Criação tem ser apenas por empréstimo, de graça.
Ambas as passagens marcam a condição insuficiente de todos os seres, menos de Deus (essa é a diferença ontológica entre Deus e a Criação). Tal condição fundamenta a dependência de Deus, que Adão recusa infantilmente, e o orgulho, que é uma vã tentativa de negar a mesma condição.
Por isso, Agostinho diz que o orgulho é a raiz de todo pecado. Trata-se de uma mentira essencial sobre nós mesmos, algo que "herdamos" como estrutura psicológica. A inveja de Deus nasce daí: Ele é, eu não. Para Agostinho, os homens viverão tentando negar isso, o que consome quantidades enormes de "energia psíquica", diria eu, em sentido psicanalítico. O orgulho é a mentira essencial que estrutura nosso caráter, ou seja, a tentativa de negar o vazio ontológico que nos constitui.
O parentesco entre o homem e o Nada (de onde ele foi tirado) implica uma luta contínua do homem para negar o Nada ou para assumi-lo. Daí que a atitude moral esperada é a humildade diante dessa insuficiência ontológica. Em linguagem "comum", isso significa reconhecer nossas fraquezas constitutivas.
Uma antropologia agostiniana sempre deixará o filósofo atento à fenomenologia do comportamento pautado pelo orgulho e pela inveja. No fundo, trata-se de uma hermenêutica moral: a moral tenta esconder a consciência da insuficiência ontológica porque ela gera todo tipo de fracasso nos projetos humanos.
Outra passagem significativa da Bíblia é a "cena" em que Caim mata Abel porque este era o preferido de Deus. Essa é outra chave de análise do comportamento humano: detestamos quem é melhor do que nós. De novo, a inveja, agora dos homens em relação aos homens, que são desiguais, sendo uns melhores do que outros. A afirmação de que os seres humanos são iguais é uma farsa, por isso serei redundante para fazer disso uma máxima: alguns poucos são melhores e carregam o mundo nas costas, enquanto os outros apenas se aproveitam, como diz Ayn Rand, que nada tinha de cristã e era ateia convicta.
Por último, o Eclesiastes e seu mantra "tudo é verdade". Sob o sol,tudo é vaidade porque tudo é vão. A vaidade, aqui identificada como vento, nuvem, pó e efemeridade essencial, dialoga com a vaidade de Adão e Eva e com a inveja que o homem tem do Ser de Deus, tal como exposta no Êxodo. Somos vaidosos (orgulhosos) porque no fundo somos apenas pó (insuficiência ontológica). O horror ao pó que nos faz estremecer (em sofrimentos, medos, carências e ódio aos melhores) também nos faz mentir sobre nós mesmos e o próprio horror.
Esse pessimismo ontológico e antropológico teria importante papel em minha recusa das utopias políticas modernas que alimentam o ideário das esquerdas, todas elas baseadas na negação da miséria humana essencial. Em relação à condição humana, a descrição bíblica parece muito mais verdadeira do que os delírios da política marxista do homem novo. Sempre que apostamos no pecado como grade de análise moral, temos mais chance de fazer "ciência" da moral, porque nosso temperamento é orgulhoso e invejoso. Eis por que vejo a Bíblia como um livro empírico.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
Entendo a Bíblia como um livro que descreve a condição humana e suas agonias. De cara, o mito da queda aponta o lugar dessa agonia: a inveja de Deus e o orgulho como negação neurótica dessa inveja. Em minha visão da natureza humana, isso é uma fonte de sentido. Há uma profunda verdade acerca da "essência" da natureza humana na inveja de Deus que Adão e Eva sentem. Vejo esse mito um pouco como Freud leu o Édipo grego: uma narrativa que descreve uma condição estrutural, um atavismo ontológico. E de onde vem essa inveja?
Posso dar duas razões. Primeiro, porque Adão é chamado por Deus de chomer (guardião) da Criação, que é tudo o que existe, inclusive o próprio Adão e sua alma. Logo, tudo é emprestado ao homem, nada é de sua propriedade - Adão é um guardião e não o dono. Em segundo lugar, no Êxodo, quando Moisés, na famosa passagem da sarça ardente, pergunta a Deus qual é o nome dEle (na versão cristã), Deus responde: "Eu sou aquele que é". Isso remete ao fato de que apenas Deus tem ser, enquanto o resto da Criação tem ser apenas por empréstimo, de graça.
Ambas as passagens marcam a condição insuficiente de todos os seres, menos de Deus (essa é a diferença ontológica entre Deus e a Criação). Tal condição fundamenta a dependência de Deus, que Adão recusa infantilmente, e o orgulho, que é uma vã tentativa de negar a mesma condição.
Por isso, Agostinho diz que o orgulho é a raiz de todo pecado. Trata-se de uma mentira essencial sobre nós mesmos, algo que "herdamos" como estrutura psicológica. A inveja de Deus nasce daí: Ele é, eu não. Para Agostinho, os homens viverão tentando negar isso, o que consome quantidades enormes de "energia psíquica", diria eu, em sentido psicanalítico. O orgulho é a mentira essencial que estrutura nosso caráter, ou seja, a tentativa de negar o vazio ontológico que nos constitui.
O parentesco entre o homem e o Nada (de onde ele foi tirado) implica uma luta contínua do homem para negar o Nada ou para assumi-lo. Daí que a atitude moral esperada é a humildade diante dessa insuficiência ontológica. Em linguagem "comum", isso significa reconhecer nossas fraquezas constitutivas.
Uma antropologia agostiniana sempre deixará o filósofo atento à fenomenologia do comportamento pautado pelo orgulho e pela inveja. No fundo, trata-se de uma hermenêutica moral: a moral tenta esconder a consciência da insuficiência ontológica porque ela gera todo tipo de fracasso nos projetos humanos.
Outra passagem significativa da Bíblia é a "cena" em que Caim mata Abel porque este era o preferido de Deus. Essa é outra chave de análise do comportamento humano: detestamos quem é melhor do que nós. De novo, a inveja, agora dos homens em relação aos homens, que são desiguais, sendo uns melhores do que outros. A afirmação de que os seres humanos são iguais é uma farsa, por isso serei redundante para fazer disso uma máxima: alguns poucos são melhores e carregam o mundo nas costas, enquanto os outros apenas se aproveitam, como diz Ayn Rand, que nada tinha de cristã e era ateia convicta.
Por último, o Eclesiastes e seu mantra "tudo é verdade". Sob o sol,tudo é vaidade porque tudo é vão. A vaidade, aqui identificada como vento, nuvem, pó e efemeridade essencial, dialoga com a vaidade de Adão e Eva e com a inveja que o homem tem do Ser de Deus, tal como exposta no Êxodo. Somos vaidosos (orgulhosos) porque no fundo somos apenas pó (insuficiência ontológica). O horror ao pó que nos faz estremecer (em sofrimentos, medos, carências e ódio aos melhores) também nos faz mentir sobre nós mesmos e o próprio horror.
Esse pessimismo ontológico e antropológico teria importante papel em minha recusa das utopias políticas modernas que alimentam o ideário das esquerdas, todas elas baseadas na negação da miséria humana essencial. Em relação à condição humana, a descrição bíblica parece muito mais verdadeira do que os delírios da política marxista do homem novo. Sempre que apostamos no pecado como grade de análise moral, temos mais chance de fazer "ciência" da moral, porque nosso temperamento é orgulhoso e invejoso. Eis por que vejo a Bíblia como um livro empírico.
trecho do ensaio "A formação de um pessimista", publicado no livro "Por que virei à direita", da editora Três Estrelas
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