Na Igreja primitiva, era o peixe o símbolo secreto de fé cristã, em referência ao batismo pela água. Assim como os peixes vivem nas profundezas do mar, dos rios e dos lagos, os cristãos, mergulhados nas catacumbas, onde foram encontradas várias pinturas de peixes, renasciam pela água batismal. Para santo Agostinho, Cristo é o peixe vivo no abismo da mortalidade, como em águas profundas (De Civitate Dei, XVIII, 23). Além disso, peixe, em grego - ichthys - era considerado acróstico de Iesous Christos Theou (H)yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).
Foi a perseguição romana que induziu as comunidades a adotar a cruz, instrumento de suplício e morte do Império. Nela Jesus foi sacrificado. A mais antiga cruz que se conhece data do século IV e está gravada no portal da igreja de Santa Sabina, em Roma, no monte Aventino, anexa ao convento que abriga o governo geral da Ordem Dominicana. (pg13)
Talvez seja isto a espiritualidade: o cerne do nosso ser, ser o que se é, para que não fique gravado na lápide de nossos túmulos o terrível aforismo cunhado por Fernando Pessoa: "Fui o que não sou". (pg19)
A oração é para o cristão o que a relação sexual é para o casal que se ama. O casal que se ama e não tem momentos de intimidade é como o cristão que diz que ama a Deus e ao próximo, mas não reserva momentos de intimidade com Deus. Esses momentos chamam-se oração. (pg20)
Onde há amor, o tempo é estorvo. O sonhos dos amantes é fazer os ponteiros pararem no infinito. No entanto, não fazemos isso com Deus. Nós, escravos do tempo, não sabemos dispor sequer de poucos minutos para desfrutar da experiência amorosa de Deus. Falamos de Deus, falamos sobre Deus, rogamos a Deus, suplicamos a Deus... mas não deixamos Deus falar em nós.
Um dos maiores desafios da vida espiritual é reservar, em nosso dia a dia, alguns momentos para curtir o amor de Deus, assim como encontramos um tempo para comer e dormir. Sim, sei muito bem que essas duas coisas situam-se na esfera da necessidade, enquanto "namorar" Deus pertence à esfera da gratuidade.
Nossa cultura nos ensina que tempo é dinheiro. Só se gasta tempo com aquilo que vai ter proveito imediato e palpável. Daí a dificuldade de abrir, em nossas vidas, espaço para a oração.
Não há dificuldade de abrir espaço para a relação amorosa, sobretudo quando irrompe como paixão. A pessoa mais ocupada do mundo haverá de encontrar tempo para o ser amado, ainda que obrigada a sacrificar o sono e a agenda de trabalho. Claro, nesse caso há um "retorno", o sentir-se amado. Sente-se que a relação custo/benefício é positiva. Em se tratando da relação com Deus, as coisas são um tanto diferentes. E onde reside essa diferença? É que Deus é ciumento e, portanto, exige que, primeiro, abandonemos os antigos "amores", ou seja, tantos apegos e supostos valores que nos impedem de estar próximos dele. Sem tais renúncias, nosso espírito permanece opaco à sua presença. Ele exige, como todo amante, exclusividade. Porém, ao contrário dos amantes, não nos quer só para ele. Faz do amor que tem a nós fonte transbordante de amor à natureza e aos outros. Isso se chama felicidade.
Por que orar? Para dilatar o coração e ser capaz de amar assim como Jesus amava. O contrário do medo não é a coragem, é a fé, essa planta que, para vicejar, exige água (a oração) e sol (o Transcendente). Sem regar, a planta morre calcinada. (pg21)
Orar é entrar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo, e não se pode dizer que esta é melhor que aquela. Há orações individuais ou coletivas, baseadas em fórmulas ou espontâneas, cantadas ou recitadas. Os salmos, por exemplo, são orações poéticas, das quais cerca de cem expressam lamentação e/ou denúncia, e cinquenta, louvor.
Nós, ocidentais, temos dificuldade de orar, devido ao nosso racionalismo. Em geral, ficamos na soleira da porta, entregues à oração que se apoia nos sentidos (uma música, uma dança, a observação de paisagens e vitrais etc.) ou na razão (leituras, reflexões, fórmulas etc.).
Orar é entrar em relação de amor. Jesus sugeriu não multiplicar as palavras. Deus conhece os nossos anseios e necessidades. Na oração, é preciso entregar-se e deixar que ele ore em nós. Se temos resistência à oração é porque, muitas vezes, tememos a exigência de conversão que ela encerra. Parar diante de Deus é parar diante de si mesmo. Como num espelho, ao orar vemos o nosso verdadeiro perfil - dobras do egoísmo realçadas, mágoas acumuladas, inveja entranhada, apegos enrijecidos. Daí a tendência a não orar ou fazer orações que não revirem ao avesso a nossa subjetividade.
Os místicos, mestres da oração, sugerem aprendermos a meditar. Esvaziar a mente de todas as fantasias e ideias, e deixar fluir o sopro do Espírito no silêncio do coração. É um exercício cujo método a literatura mística ensina. Mas é preciso, como Jesus, reservar tempo para isso.
Oramos para aprender a amar como Jesus amava. Só a força do Espírito dilata o coração. Portanto, uma vida de oração se avalia, não pelos momentos entregues a ela, e sim pelos frutos na vida cotidiana: os valores elencados como bem-aventuranças no Sermão da Montanha (Mateus 5,1-12). Ou seja, pureza de coração, desprendimento, fome de justiça, compaixão, destemor nas perseguições etc.
Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar em nosso espírito. É permitir que faça morada em nós. Sem cair no farasaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como aquele fariseu diante do publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e individualista em que vivemos.
Orar é subverter-se a si próprio. Centrado em Deus, o orante descentra-se nos outros, e imprime à sua vida a felicidade de amar porque se sabe amado. Parafraseando Jó, antes de orar se conhece a Deus "por ouvir falar". Depois, por experimentar. O que levou Jung a exclamar: "Eu não creio. Eu sei." (pg23)
Método de oração
Deve-se inicialmente reavaliar como se tem rezado, que dificuldades têm sido encontradas. Na vida de oração é preciso distinguir o teologal do moral. O teologal é o diálogo íntimo com Deus, consciente de que o orante é um pecador aberto à misericórdia do Pai. Este não exige uma conduta moral exemplar de quem pretende dele se aproximar. Como bem o mostra a parábola do filho pródigo, é o Pai que vai ao encontro do filho arrependido, disposto à reconciliação. Assim, a oração é fator de reconciliação da pessoa com Deus, e dela mais necessitam justamente aqueles que se sentem, de algum modo, em contradição com o projeto e a vontade dele.
O silêncio é a matéria-prima do amor e da oração. Não se trata apenas do silêncio exterior, tão difícil hoje nas grandes cidades. Trata-se, sobretudo, do silêncio interior, que resulta do descanso físico e mental, da concentração, do controle do desejo e da ansiedade, e de deixar-se habitar pelo Espírito. Sob estafa, a oração é como trocar a refeição calma e farta por um sanduíche vendido na esquina e comido de pé...
São João da Cruz recomenda que, no trabalho, a pessoa se assemelhe à cortiça na água, ou seja, sem nunca se deixar submergir. Saber dosar as tarefas, não se julgar insubstituível, evitar a multiplicação incessante de compromissos e respeitar o ritmo do organismo e da mente, é uma sabedoria a ser conquistada por quem pretende aprofundar-se na vida de oração.
A concentração é obtida através de exercícios que exigem o isolamento do corpo e da mente. Primeiro, é preciso descobrir o gosto pela solidão. Estar só em casa ou num parque, simplesmente observando detalhes, contemplando esses infinitos objetos e movimentos que sinalizam a plenitude divina. Controlar o desejo, negando aos ouvidos a música gostosa ou, aos olhos, a curiosidade de devorar notícias à primeira hora da manhã. Suprimir, durante uma semana, um dos alimentos a que se está acostumado - como a carne ou o açúcar -, nesse treino de tornar-se sempre mais independente diante das coisas e mais senhor ou senhora de si mesmo.
Mente dispersa é como uma casa com todas as janelas abertas numa ventania. É preciso fechar as janelas e portas da mente, através de exercícios apropriados, como centrar a atenção na própria respiração, contando as aspirações e expirações, sem um dar seu ritmo, de 1 a 4 e novamente recomeçando, como se não houvesse outra coisa com que se preocupar. É bom também ficar numa posição cômoda - desde que não seja deitado - durante quinze ou vinte minutos, de olhos fechados, fixando-se na ideia de que toda a mente está ocupada por uma nuvem branca, muito densa, que não permite a entrada ou a permanência de nenhuma outra imagem ou pensamento.
Deixar-se habitar pelo Espírito é mergulhar no amor de Deus, que nos envolve por todos os lados. Ele jamais deixa de amar as pessoas. São estas que, movidas por falsas noções religiosas, podem imaginar que Deus as abandona. Ora, Deus é amor e, portanto, não pode negar a si mesmo. Ele ama em qualquer circunstância, pois o seu ser é amor. A pessoa é que se abre mais ou menos a esse amor que se derrama gratuitamente, querendo inundar corações.
A experiência de Deus não é algo que se situe no plano da consciência e sim na inconsciência. O místico é aquele que conseguiu, na acolhida do dom de Deus, reduzir o espaço que há entre o consciente e o inconsciente. Lá no centro de si mesmo, a pessoa encontra Deus, âmago de seu ser e energia de seu existir.
Nosso modo de rezar tem a ver com a nossa visão de Deus. Quem confia, entrega-se; quem teme, roga; quem ama, espera; quem duvida, racionaliza. (pg 25)
Séculos antes de o imperador Teodósio I, o Grande, proibir a Olimpíada, no ano 392, instigado por um bispo obtuso que via nos jogos uma manifestação pagã, existiu um atleta chamado Asiarques, que corria como uma lebre e participara, em Siracusa, de uma fracassada conspiração contra o tirano Dionísio, o Velho - o mesmo que frequentou as aulas de filosofia de Platão e depois o prendeu na gruta na qual nasceu o Mito da Caverna. (pg31)
O tirano, perplexo, disse que um amigo como aquele não existia no mundo. Asiarques garantiu que sim, e se chamava Pítias. (pg31)
Aristóteles, em Ética a Nicômaco, frisa que a amizade é o maior de todos os bens, e que o verdadeiro amigo é aquele que se sente mais feliz em agradar o amigo do que em ser agradado. E conclui: "Sem amigo ninguém poderia viver, ainda que possuísse todos os bens" (Livro VIII, 5). Poucos séculos depois, na Palestina, talvez após ouvir a história da amizade entre Asiarques e Pítias, Jesus de Nazaré proclamou: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos" (João 15) (pg33)
No século XX, o clamor de duas grandes guerras encheu de silêncio de Deus céus e corações humanos. Motivados pelo racionalismo, Marx e Freud já haviam concordado que a ideia de Deus é uma inversão compensatória de nossas incompletudes. Só não se deram conta de que a razão é a imperfeição da inteligência. (pg40)
Fomos criados para ser felizes neste mundo. Se há dor e injustiça, não são castigos divinos, resultam da obra humana e por ela devem ser erradicadas. Como diz Guimarães Rosa, "o que Deus quer ver é gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre e amar no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta." (pg67)
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