a capa de Hanói é belíssima (edição da Alfaguara)
só o trompete.
sozinho o trompete.
o silêncio e o trompete.
em silêncio, o trompete.
o trompete, esperando seu dono.
o trompete, esperando David.
o trompete, sem dono.
acabei de ler e estou segurando a capa, em protesto: acabou.
acabei de ler e estou segurando a capa, por pretexto: não quero me despedir.
e a vida são despedidas. e isso é triste. e a vida são mais que despedidas. menos triste.
há livros que tocam na ferida. "Hanói" assopra de maneira delicada. É um sopro "cool" e sensível de trompete. Seu fraseado musical é simples e bonito.
Leiam alguns trechos:
"Todos os homens são ilhas, mas as ilhas friccionam umas nas outras, se acotovelam, o coqueiro de uma projeta sombra no solo da outra." (pg 31)
"E daí, aliás, se morresse antes da idade correta, apropriada, esperável, desejável?
Eram só uma vida e uma morte e o universo não ia se desequilibrar com isso. Se David levasse em conta a grande sinfonia das coisas acontecendo e depois deixando de acontecer por aí afora, ele não faria falta." (pg 53)
"A morte parecia muito mais estranha: como é que aquilo que era se torna o que não é mais? Como é que uma pessoa, um bicho ou mesmo uma planta com que você convivia, que durante um tempo se esforçou para construir uma existência em torno de preferências, incapacidades, intolerâncias, ciclos, como é que tudo isso se retirava do universo em um instante?" (pg 123)
"Não existia, ele tinha certeza absoluta, um guia de viagem para a última etapa da vida de alguém em algum lugar. Não venderia.
Ou venderia? Poderia ser uma série. Como morrer em Londres. Como morrer em Casablanca.
Os guias indicariam as melhores épocas do ano para fazer isso, as melhores paisagens para se ter diante do rosto, a sombra de árvore ou o quarto de hotel ou pensão mais convidativos, ou quem sabe um prostíbulo, ou quem sabe um barco em que você pudesse ficar oscilando para cá e para lá, para cá e para lá, até o fim. Até acabar.
Não deveria ser nada grandioso. Pelo contrário. Bastaria, talvez, ir ao mercado principal da cidade e se sentar ali, e ficar olhando o movimento. Teria como ser tão simples? Ou a interferência dos outros (ei, aquele cara não parece nada bem, alguém chame a ambulância) era inevitável?" (pg 139)
"O que Huong não entendia era que David tinha começado a pensar em Hanói como uma espécie de cemitério de elefantes. E para o cemitério os elefantes vão sozinhos. As pessoas vão sozinhas para a sua própria morte. Ninguém morre acompanhado." (pg 193)
algumas músicas/álbuns/artistas citadas no livro:
Metamorphos - Dave Holland Quintet (pg 113)
The Shape of Jazz to Come "Lonely Woman" "Focus on Sanity" Ornette Coleman (pg 141)
Anthem - Christian Scott
Time on my hands - Ahmad Hamal, com Israel Crosby e Vernel Fournier (pg 195)
Radio Music Society - Esperanza Spalding (pg 211)
Italian Ocean Song - Frank Haunschild e John Abercrombie (pg 219)
Ralph Towner e Paolo Fresu (pg 224)
Sweet Georgia Brown - Ella Fitzgerald e Duke Ellington Orchestra
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